O Brasil perde cerca de 39 por cento de toda a agua tratada antes que ela chegue as torneiras das familias brasileiras, segundo o estudo Perdas de Agua 2026 realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GeoAssociados. O volume desperdicado equivale a aproximadamente 4.800 piscinas olimpicas por dia e seria suficiente para abastecer 77 milhoes de pessoas, mais do que o dobro da populacao que atualmente nao tem acesso a agua potavel no pais.
As perdas ocorrem por uma combinacao de fatores que incluem vazamentos na rede de distribuicao, erros de medicao nos hidrometros e consumos nao autorizados. Os dados utilizados no levantamento sao do Sistema Nacional de Informacoes sobre Saneamento Basico referentes ao ano base de 2024 e revelam que o indicador se manteve praticamente estavel nos ultimos cinco anos, oscilando em torno de 39,5 por cento sem apresentar melhora significativa.
Entre as capitais com os piores indices de perda, o estudo destaca Belo Horizonte com 68,29 por cento, Maceio com 64 por cento e Parauapebas no Para com 70 por cento. A presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Preto, ressalta que apenas quatro das 27 capitais brasileiras ja atingiram a meta de 25 por cento estabelecida pela portaria do governo federal para 2033.
A meta governamental preve uma reducao gradativa das perdas ate chegar a 30 por cento em 2032 e 25 por cento em 2033. No entanto, o ritmo atual de investimento coloca em serias duvidas a capacidade do pais de cumprir esses prazos, especialmente nas regioes norte e nordeste, onde o deficit de acesso a agua tratada ainda e significativo e se soma ao desafio de reduzir as perdas existentes.
A responsabilidade pela gestao da distribuicao de agua recai sobre as concessionarias, sejam publicas ou privadas, que devem captar, tratar e distribuir a agua ate as residencias. As agencias reguladoras que fiscalizam o sistema de distribuicao precisam atuar de forma mais incisiva, cobrando a evolucao da gestao e a reducao das perdas, inclusive condicionando o acesso a recursos federais ao cumprimento de metas.
Especialistas apontam que a tecnologia ja permite avancos significativos na reducao de perdas, com o uso de sensores de vazao e pressao, setorizacao das redes de distribuicao e ate inteligencia artificial para identificar pontos criticos de vazamento. No entanto, a falta de priorizacao politica e de investimento adequado em saneamento basico continua sendo o principal obstaculo para a melhoria dos indicadores.
O cenario de mudancas climaticas torna a questao ainda mais urgente, ja que a nocao de que o Brasil possui abundancia hidrica e cada vez mais questionada pela realidade de secas prolongadas e crises de abastecimento em diversas regioes. Enquanto o pais discute como reduzir suas perdas, 33 milhoes de brasileiros continuam sem acesso a agua tratada e o volume desperdicado diariamente seria mais do que suficiente para resolver esse deficit historico.
