Um levantamento do MapBiomas trouxe um retrato preocupante sobre a água no Brasil. Segundo os dados, a superfície coberta por água no país vem apresentando queda desde 1985, em um processo que, em alguns momentos, se mostra ainda mais acentuado e que já atinge quase metade das cidades analisadas.
As maiores perdas aparecem concentradas em uma região específica, com destaque para Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Amazonas. No ranking das cidades mais afetadas, Corumbá registra uma redução de 56,7%, seguida por Cáceres, no Mato Grosso, com 54,8%, e Poconé, também no Mato Grosso, com 61%, entre os pontos de maior recuo no mapeamento.
No recorte por estados, o ranking de perdas é liderado pelo Mato Grosso do Sul, com redução de 527 mil hectares de superfície de água, seguido pelo Mato Grosso, com queda de 336 mil hectares. Na direção contrária, o Pará apareceu com o maior ganho de superfície de água do país, somando 142 mil hectares.
O levantamento também separa a água em dois tipos. Cerca de 77% da superfície corresponde à água natural, ligada ao ciclo das chuvas, enquanto 23,3% é artificial, formada por reservatórios criados por empresas, companhias e governos para abastecer regiões onde a captação natural não é suficiente.
O contraste entre esses dois grupos chama a atenção. Enquanto os reservatórios cresceram cerca de 69%, os corpos naturais seguem o caminho inverso e encolhem. Na prática, isso significa menos rios, menos riachos e menos lagoas, em um sinal claro do desgaste do ambiente natural diante de tantos fenômenos em um curto espaço de tempo.
A situação varia conforme o bioma. Na Amazônia, 92,7% da água é de origem natural, fator ligado à regulação das chuvas em toda a América do Sul. No Cerrado, a água natural representa 35,1%, na Caatinga 22% e no Pampa 88,1%, mostrando como cada região depende de forma diferente desses recursos.
O Pantanal aparece como um dos casos mais delicados. A região depende fortemente da água natural e das chuvas, e os pesquisadores alertam para o chamado risco de ponto de não retorno, quando a degradação chega a um nível em que não é mais possível reverter o quadro, especialmente em períodos de seca e de queimadas mais intensas.
Para os pesquisadores, os fatores por trás dessa queda entre 1985 e 2024 são claros e combinados: o aquecimento global, os eventos climáticos extremos, a seca que afeta as regiões e o desmatamento cada vez mais frequente. Segundo eles, em 2025 já foi possível observar certa recuperação, embora ainda insuficiente para reparar tudo o que foi perdido ao longo de quatro décadas.
Segundo o coordenador técnico do MapBiomas Água, Juliano, quase 45% dos municípios brasileiros registraram superfície de água abaixo da média histórica. Ele lembrou que a série reúne 41 anos de dados e que, analisada década a década, a média vem caindo de forma contínua, com a última década registrando a maior queda, o que reforça o alerta sobre a disponibilidade hídrica no país.
