Uma cirurgia que deveria resolver um problema de saúde acabou se transformando em um longo drama para uma atendente de 34 anos em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Após uma operação para a retirada do útero, ela descobriu que uma pinça cirúrgica havia sido esquecida dentro do seu abdômen. O objeto permaneceu no corpo dela por cerca de três meses antes de ser identificado.
O caso começou quando a paciente, identificada como Érica, procurou uma ginecologista por causa de dores fortes na barriga, além de sangramentos e anemia. Durante o atendimento, ela foi informada de que o problema poderia ser resolvido com a retirada do útero. Como já tinha três filhos e o marido havia feito vasectomia, ela concordou em realizar o procedimento.
Num primeiro momento, a cirurgia pareceu ter ocorrido sem problemas, e Érica teve alta em menos de 24 horas. No entanto, cerca de três meses depois, em 10 de abril, ela voltou a ser internada com fortes dores e a sensação de que algo se mexia dentro dela. Exames de imagem, entre tomografia e raio-x, apontaram a presença de um corpo estranho no abdômen da paciente.
No dia seguinte, ela voltou à mesa de cirurgia, e foi então confirmado que o objeto era uma pinça cirúrgica, do tipo conhecido como pinça Kelly, com cerca de 18 centímetros. O instrumento havia obstruído o intestino, e uma parte do órgão, de aproximadamente 22 centímetros, chegou a ficar necrosada e precisou ser retirada. Ao longo de cerca de cinco meses, Érica passou por três cirurgias e diversas internações por infecções.
As consequências foram além da saúde. Érica relatou que se considera uma sobrevivente diante do número de cirurgias e que chegou a perder uma oportunidade de emprego como agente comunitária por causa das idas e vindas ao hospital. Diante disso, ela procurou a polícia e registrou um boletim de ocorrência por lesão corporal, no qual o médico responsável pela cirurgia, Juliano Noronha Ribeiro, aparece como autor.
Em seu depoimento à polícia, o médico apresentou a própria versão sobre o ocorrido. Juliano Noronha Ribeiro afirmou que a paciente teve uma hemorragia e que diversas pinças cirúrgicas foram usadas para conter o sangramento. Segundo ele, a conferência e a contagem das pinças são atribuições da equipe de enfermagem e do instrumentador cirúrgico, e ele só fecharia a cavidade abdominal após a confirmação da equipe de que todos os materiais haviam sido conferidos.
A instrumentadora que participou da primeira cirurgia também prestou depoimento e confirmou que várias pinças foram de fato utilizadas para o controle da hemorragia. No entanto, ela afirmou que a responsabilidade primária pela gestão do instrumental cirúrgico é atribuição do cirurgião responsável pelo procedimento. O caso segue sob investigação das autoridades, que devem apurar as responsabilidades.
