O Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef, lançou no Brasil a iniciativa Unidades Amigas das Adolescências, voltada à certificação do cuidado a jovens de 10 a 19 anos dentro do Sistema Único de Saúde. Em entrevista à Record News, a chefe de saúde do Unicef no país, Luciana Febo, afirmou que Manaus, Recife e Rio de Janeiro são as primeiras cidades a receber o projeto, que servirá de piloto antes de ganhar escala para o restante do território.
Segundo Febo, o país tem cerca de 34 milhões de adolescentes, mas essa faixa etária raramente aparece nas unidades básicas de saúde. Ela observou que, em uma visita a um posto, é comum encontrar gestantes, idosos e crianças, mas não jovens, que costumam procurar o serviço apenas em situações pontuais, como a vacinação, ou em emergências.
Para a representante do Unicef, parte do problema está na falta de preparo das próprias unidades para atender as questões específicas da idade. A proposta da iniciativa é justamente oferecer um olhar mais integral, acompanhando o crescimento e o desenvolvimento dos adolescentes e reforçando a promoção da saúde e a prevenção, e não apenas o atendimento quando algo já não vai bem.
O lançamento ocorre em um contexto de preocupação com a saúde mental dos jovens. O Unicef estima que quase um em cada seis adolescentes no Brasil vive com algum transtorno mental, um dado que reforça a urgência de ampliar o acesso a cuidados nessa fase da vida.
Os números relacionados ao suicídio também acendem o alerta. De acordo com o que foi apresentado na entrevista, o suicídio cresceu 81% entre jovens em menos de uma década, uma tendência tratada como uma espécie de epidemia silenciosa que, muitas vezes, ainda é evitada nas conversas e empurrada para debaixo do tapete.
Febo defendeu que o cuidado com a saúde mental deve começar cedo, inclusive na escola. Ela destacou o Programa Saúde nas Escolas como uma ferramenta estratégica por promover a interlocução entre educação e saúde, e ressaltou que falar sobre dores e sofrimentos com profissionais qualificados já tem, em si, um efeito de cuidado.
A chefe de saúde do Unicef descreveu a iniciativa como uma construção conjunta com as secretarias municipais de saúde, o Ministério da Saúde e os próprios adolescentes. A expectativa é que a experiência das primeiras cidades ajude a desenhar um modelo capaz de alcançar os diferentes contextos do país e a garantir o que ela classificou como um direito dos jovens à saúde e ao bem-estar.
