Os números são alarmantes e revelam uma das faces mais sombrias da realidade brasileira. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, o país registra seis casos de estupro de menores de 14 anos a cada hora. Em 63% desses crimes, os agressores são familiares das próprias vítimas, e 69% das agressões ocorrem dentro da casa da criança ou do adolescente, demonstrando que o ambiente que deveria ser de proteção é, com frequência devastadora, o palco da violência.
A fundação Liberta, que completa dez anos de atuação no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes, trouxe à tona dados que ajudam a dimensionar a extensão do problema. Em pesquisa encomendada ao Datafolha em 2022, descobriu-se que 32% dos entrevistados em todo o Brasil, de todas as classes sociais, haviam sido vítimas de alguma forma de violência sexual antes dos 18 anos. Isso significa que aproximadamente um terço da população brasileira adulta carrega marcas desse tipo de crime.
O silêncio é um pacto com o agressor, alertou Luciana Temer, presidente da fundação, em entrevista à Record News. Desse universo de vítimas identificadas pela pesquisa, apenas 11% fizeram alguma denúncia formal e somente 26% tiveram coragem ao longo da vida de contar a alguém o que sofreram. O constrangimento das vítimas, especialmente de crianças que muitas vezes nem sabem que estão sendo abusadas, perpetua a violência e garante impunidade aos agressores.
O cenário se agrava com a expansão da violência para o ambiente digital. A SaferNet, organização responsável por receber denúncias de crimes na internet no Brasil, informou que no ano passado, de cada dez denúncias recebidas, sete eram relacionadas a violência sexual contra crianças e adolescentes. A extorsão sexual de meninas e meninos por meio da internet cresceu de forma exponencial, com casos que levam a processos depressivos, automutilação e consequências devastadoras para a saúde mental das vítimas.
Para enfrentar esse quadro, a fundação Liberta desenvolveu um guia gratuito de prevenção disponível em seu site, organizado por faixas etárias: de zero a dois anos, de dois a quatro, de cinco a sete e de oito a dez anos. Falar sobre violência sexual é difícil, mas prevenir com uma criança é surpreendentemente simples, explicou Temer. O material fornece ferramentas para que as crianças possam identificar situações de risco sem que os pais precisem abordar diretamente temas como sexo ou violência.
A presidente da fundação destacou ainda que a questão atinge também meninos, embora com menor visibilidade. Relatos de homens que sofreram abuso na infância são menos frequentes devido ao constrangimento adicional que sentem, especialmente quando o agressor era do sexo masculino. O estigma e a confusão entre abuso e orientação sexual impedem que muitos homens busquem ajuda ou relatem suas experiências, mantendo o ciclo de silêncio e sofrimento.
Os especialistas são unânimes em afirmar que a prevenção passa necessariamente pela participação ativa das famílias no universo digital dos filhos e pela quebra do silêncio que historicamente protege os agressores. A sociedade precisa mudar sua relação com esse tipo de violência, concluiu Temer. Quando os adultos se calam, as crianças continuam desprotegidas, e os números seguem crescendo em um país onde a violência sexual infantil atinge proporções epidêmicas.
