Uma ilha no litoral do Rio de Janeiro virou palco de um problema que preocupa autoridades e moradores. Gatos que foram abandonados acabaram tomando conta do local, em um cenário que já passou a ser tratado como uma questão de saúde pública. O ambiente paradisíaco, em Mangaratiba, no litoral sul do estado, esconde um drama que inquieta cientistas e poder público.
A cerca de 8 quilômetros do continente, a chamada Ilha Furtada, conhecida como Ilha dos Gatos, abriga mais de 300 gatos abandonados. No Brasil, o abandono de animal doméstico é considerado crime, sujeito a multa e até prisão, mas a lei segue sendo desrespeitada no local. O problema, segundo o que se sabe, teria começado ainda na década de 1950.
Com a aproximação das embarcações, os felinos se aglomeram nas pedras à beira-mar em busca de comida. Diante da pouca oferta natural de alimento e sem nenhuma fonte de água doce, os animais dependem da ajuda de voluntários para sobreviver. Especialistas alertam que não se pode romantizar a situação, pois não se trata de um paraíso dos gatos, e sim de um ambiente com escassez de água, comida e abrigo, deixando os animais expostos.
Logo na chegada à ilha, há um sinal de alerta. Em meio às dezenas de animais que circulam livremente, é possível encontrar fezes de gatos espalhadas por vários pontos. O problema é que, quando chove, esse material escorre para o mar, e a contaminação não fica restrita à costa, podendo chegar até a mesa dos consumidores.
Pesquisadores identificaram o protozoário causador da toxoplasmose em 40% dos gatos analisados na ilha. Segundo os estudos, o gato infectado elimina pelas fezes os oocistos, descritos como pequenos ovos, que contaminam o ambiente. As pessoas podem então consumir ostras e mariscos, que são organismos filtradores, capazes de carregar esses oocistos de volta para o ser humano. Há ainda investigações sobre a presença da doença em golfinhos da região.
A gravidade do caso levou o tema ao debate público. Em março deste ano, a discussão inspirou uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio, na qual foram apresentadas propostas como um sistema integrado de monitoramento por câmeras e a fiscalização conjunta da marinha, da polícia ambiental e da própria prefeitura, com o objetivo de coibir o descarte de animais.
Ainda em 2026, a prefeitura de Mangaratiba aprovou uma legislação específica para as ilhas, aumentando a punição nos casos de abandono. A previsão do município é de que, até o fim do ano, todos os gatos sejam retirados da ilha. Os animais devem receber acolhimento, passar por castração e microchipagem e, em seguida, ser encaminhados para campanhas de adoção.
