Um estudo da Universidade de São Paulo apontou a presença de álcool ou drogas em mais da metade das vítimas de mortes violentas no Brasil. Segundo reportagem da Record News, a pesquisa avaliou 3.577 casos em quatro capitais brasileiras, Belém, Recife, Vitória e Curitiba, e teve seus resultados divulgados em uma revista científica. O objetivo foi produzir dados padronizados sobre a relação entre substâncias psicoativas e mortes por causas externas no país.
As análises incluíram álcool, drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, com amostras coletadas entre 2022 e 2024. De acordo com os pesquisadores, as quatro capitais foram escolhidas por concentrarem altos índices de violência e por terem importância em rotas do tráfico internacional de drogas. A proposta era justamente reunir informações comparáveis sobre um problema que ainda carece de dados sistematizados no Brasil.
Os números ajudam a dimensionar o perfil das mortes analisadas. Do total de casos avaliados, 67% foram homicídios, enquanto os acidentes de trânsito representaram 15% e os suicídios responderam por 9% das ocorrências. Esse recorte mostra que a maior parte das mortes violentas estudadas esteve ligada à criminalidade, mas que o trânsito e os casos de suicídio também aparecem de forma relevante no levantamento.
O autor do estudo, Henrique Silva Bombana, biomédico, toxicologista e pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, explicou os limites da pesquisa. Segundo ele, a única certeza é que as pessoas consumiram as substâncias em um período relativamente curto antes da morte. Ele ressaltou que o desenho do estudo não permite estabelecer uma relação direta de causa e efeito, ou seja, não é possível afirmar que as vítimas morreram por terem consumido essas substâncias.
Ainda assim, os dados revelaram associações consideradas importantes pelos pesquisadores. Foram observadas ligações entre o uso de cocaína e as mortes por homicídio, entre o consumo de álcool e as mortes relacionadas ao trânsito e, principalmente, entre o uso de benzodiazepínicos, que são medicamentos sedativos e hipnóticos, e os casos de suicídio. O conjunto desenhou um retrato das mortes por causas externas nessas capitais e sua correlação com o uso de substâncias.
Bombana lembrou que a relação entre álcool e trânsito é discutida há quase 30 anos, acompanhada de toda uma legislação de trânsito, mas que ainda assim uma grande porcentagem das vítimas havia consumido álcool. Ele destacou que a amostragem não se limitou aos motoristas, incluindo também pedestres e passageiros, ainda que a maioria das vítimas fosse de motociclistas e condutores envolvidos nas ocorrências.
Para o pesquisador, a legislação brasileira é robusta quando comparada à de outros países, mas ainda apresenta falhas em alguns pontos. Ele citou como exemplo a possibilidade de a pessoa se recusar a fazer o teste do etilômetro. Embora existam sanções administrativas nesses casos, ele avalia que quem sabidamente ingeriu bebida alcoólica e se recusa a ser submetido ao teste pode acabar sendo beneficiado, o que aponta para a necessidade de aperfeiçoar as regras existentes.
