O Brasil vive uma realidade preocupante nas suas estradas. Segundo uma pesquisa do setor, três em cada dez caminhoneiros admitem recorrer a algum tipo de droga para se manter acordados e seguir viagem. Em um país que conta hoje com cerca de dois milhões de motoristas de caminhão, o dado expõe um problema de segurança no trânsito que vai muito além da exaustão individual de cada profissional.
A raiz do problema está nas condições de trabalho. As jornadas são longas e o descanso nem sempre acontece como deveria, levando muitos motoristas a dirigir por madrugadas inteiras. Como relatou um caminhoneiro, não é raro rodar à noite e percorrer 1.500 ou 1.600 quilômetros em uma única viagem, em um ritmo difícil de sustentar apenas com o sono natural.
Há 20 anos na profissão, um motorista admitiu que já recorreu à anfetamina, também conhecida como rebite, para dar conta dos horários. Em seu relato, ele contou que chegou a tomar até dez comprimidos por noite para conseguir cumprir o cronograma com tranquilidade, um testemunho que ilustra a dimensão do hábito entre quem vive na estrada.
Os números do setor confirmam a gravidade. De acordo com a pesquisa, quase 28% dos caminhoneiros usam alguma substância para trabalhar, e, dentro desse grupo, 35% consomem especificamente o rebite. Especialistas apontam que, quanto mais pontos de parada e descanso adequados existirem, menor será a chance de o motorista ter acesso a esse tipo de estimulante.
O risco para a segurança é direto. Dirigir um caminhão por horas seguidas exige atenção constante, mas, quando o sono é combatido artificialmente por estimulantes como o rebite, o motorista pode perder reflexos e comprometer a capacidade de reação diante de uma situação de perigo ao volante. A curto prazo, ele pode sofrer um acidente porque não percebe que entrou em estado de exaustão.
Além do trânsito, há também o impacto sobre o corpo. O uso excessivo dessas substâncias sobrecarrega o sistema cardiovascular, levando a taquicardia e ao aumento da pressão arterial, e prejudica ainda outros órgãos, como o fígado e os rins. O estímulo artificial, portanto, cobra um preço que se acumula ao longo dos anos de profissão.
A dimensão nacional do problema aparece nas operações de fiscalização. A apreensão de 45 mil comprimidos pela Polícia Rodoviária Federal em Goiás mostra que o consumo se espalha pelo país, e, no ano passado, o uso de substâncias causou 62 acidentes, com três mortes registradas. A corporação realiza operações para coibir a importação ilegal de anfetaminas e a distribuição nos pontos de consumo. Depois de quase sofrer um acidente, o caminhoneiro entrevistado abandonou o estimulante e afirmou ter consciência de que colocou a própria vida e a de outras pessoas em risco.
