O Ministério Público Federal abriu um inquérito para investigar as responsabilidades históricas e buscar medidas de reparação coletiva às vítimas do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. A abertura da investigação acontece logo depois de o governo do estado ter desativado em definitivo a instituição na semana passada, encerrando um dos capítulos mais duros da história recente do país.
Por décadas, os internos do hospital sofreram maus-tratos e tortura, e cerca de 60 mil pessoas morreram dentro da instituição ao longo dos anos de funcionamento. Apesar da dimensão dos horrores vividos por milhares de brasileiros, as vítimas e seus familiares nunca receberam qualquer tipo de indenização pelo que passaram.
Uma dessas histórias é a de João Bosco, que nasceu dentro do Hospital Colônia de Barbacena. Ele passou os dois primeiros anos de vida em um dos pavilhões da unidade, ao lado da mãe, até ser levado para a antiga FEBEM, em Belo Horizonte, sendo separado dela ainda muito pequeno.
A mãe de João, Geralda Siqueira, havia sido levada para a instituição em 1966, quando tinha apenas 14 anos e estava grávida. Segundo o relato, ela havia sido estuprada pelo patrão, e foi nesse contexto que o filho acabou nascendo dentro do hospital, longe de qualquer estrutura de proteção.
Com a separação, João passou a infância e a adolescência em orfanatos, distante da mãe. O reencontro entre os dois só aconteceu 43 anos depois, um intervalo que dá a dimensão do rompimento imposto às famílias atingidas por aquele sistema de internações.
Ao falar sobre o que viveu, João resumiu o peso da experiência ao dizer que lhe tiraram o direito de Geralda ser sua mãe e o direito dele de ter uma mãe. Até hoje, nem a família dele nem a de qualquer outro ex-interno do hospital recebeu algum tipo de reparação por essa separação e pelos anos perdidos.
Diante desse cenário, o inquérito do Ministério Público Federal busca apurar as responsabilidades e definir medidas de reparação coletiva para as vítimas. Os trabalhos começaram em setembro do ano passado, e ex-internos e familiares já começaram a ser ouvidos. Segundo o relato apresentado, ainda se está no processo de compreender a extensão dos danos e o número de pessoas atingidas.
