A Polícia Federal deflagrou uma operação para combater o avanço do tráfico de drogas nos portos de Santa Catarina, onde criminosos usam táticas especiais para carregar navios com cocaína. Entre os métodos, mergulhadores profissionais vendem sua mão de obra altamente especializada para os traficantes e escondem a droga no casco das embarcações. A reportagem acompanhou com exclusividade uma ação arriscada nas águas do litoral catarinense.
Durante as fiscalizações, mergulhadores da Polícia Federal localizaram mais de 120 quilos de cocaína em um compartimento submerso de um navio e quase 300 quilos escondidos em pallets. Em Imbituba, os agentes encontraram a chamada caixa de mar de uma embarcação e, pouco depois, retiraram da água 124 quilos da droga. O trabalho exige policiais com certificação e controle emocional para atuar nesse ambiente.
Para localizar a droga, a polícia utiliza um robô submarino, o ROV, que identifica em qual caixa de mar a cocaína está escondida, já que a estrutura pode ter até seis compartimentos. Os criminosos da organização saltam na água e descem por até 20 metros para chegar a esses pontos. Em um vídeo obtido com exclusividade, é possível ver o momento exato em que um mergulhador entra na água para levar a droga até o navio.
Segundo a Polícia Federal, os portos de Santa Catarina se tornaram pontos de saída de drogas produzidas na América do Sul pela facilidade de acesso por estradas. A cocaína comprada na Bolívia, no Peru e no Paraguai chega aos portos catarinenses por via terrestre e é escondida em navios com destino a Espanha, França, Itália e África do Sul. O porto de Santos, em São Paulo, segue como o maior do país, mas terminais como Imbituba e Navegantes passaram a fazer parte da rota.
A investigação revelou ainda outras táticas usadas pelos criminosos. Em uma área já fiscalizada do porto, um motorista rompe o lacre de segurança, esconde uma bolsa de cocaína em meio à carga já vistoriada e coloca um lacre falso. Há também caminhões com fundos falsos que entram para contaminar contêineres já escaneados e prontos para partir, driblando os equipamentos de inspeção.
Em um dos casos, a Polícia Federal monitorou por quatro dias um contêiner guardado em um galpão. A carga, declarada como pó de cerâmica, sairia do porto de Navegantes com destino à África do Sul, mas servia de disfarce para mais de 700 quilos de cocaína pura. Segundo os investigadores, o lucro com esse tipo de operação pode chegar a 800% ou 900% sobre o valor da mercadoria.
Ao longo da investigação, a Polícia Federal prendeu 24 pessoas em 12 cidades de Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais, incluindo o principal líder do esquema, Ângelo Scott Jr. O grupo criminoso tinha ramificações em sete países e, no total, foram apreendidas mais de quatro toneladas de cocaína. Para conter o tráfico, as fiscalizações noturnas ganharam reforço de tecnologia, como óculos de visão noturna e drones equipados com câmeras térmicas.
