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R$ 3,5 bilhões: a nova geração de investidores que está mudando o jogo

Juliana Alves Juliana Alves julianaalves.avalw.com · 287 reads Respect0 Save Share Read only
READS6live count PUBLISHED12 Oct2026 READING TIME5 min907 words LANGUAGEPortuguese
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Famílias brasileiras estão substituindo a poupança por investimentos em bolsa para os filhos. Meninas lideram o crescimento.

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Aos quatro anos, a menina Elisa ainda não faz a menor ideia do que seja um título indexado à inflação ou como funcionam os juros compostos. Ela não sabe disso, mas já é sócia de empresas listadas na bolsa. A iniciativa partiu da mãe, Isabela Marto, que decidiu criar uma reserva para a filha assim que a rotina pós-parto permitiu. O objetivo é ajudar a financiar o ensino superior, mas a mãe admite que, se os planos mudarem, a reserva pode ter outro destino. Para ela, a prioridade é ensinar a filha a fazer o dinheiro trabalhar, algo que faltou na própria infância. Essa cena, que parece distante da realidade de muitos, está se tornando cada vez mais comum no Brasil.

Os números da B3 confirmam essa virada. Mais de 60 mil crianças e adolescentes, todos com até 17 anos, já possuem investimentos em renda variável. Juntos, eles acumulam aproximadamente R$ 3,5 bilhões em patrimônio aplicado em ações, fundos imobiliários, ETFs e outros ativos. Isso representa um salto de 58% em relação ao volume registrado em dezembro de 2022. Não é mais um fenômeno isolado de famílias ricas. É uma mudança estrutural na forma como o brasileiro encara a educação financeira e a construção de patrimônio a longo prazo.

O fim da era da poupança

Durante décadas, o planejamento financeiro dos filhos se limitou a abrir uma conta poupança e conceder mesadas. Era o teto do que a maioria das famílias considerava possível ou necessário. Essa mentalidade está sendo substituída por uma visão mais sofisticada. Pais e responsáveis vêm utilizando os instrumentos de médio e longo prazos do mercado de capitais como maneira de trazer lições importantes sobre investimentos e sonhos futuros. O mercado de capitais entrou nessa equação financeira familiar, substituindo a inércia da poupança pela dinamismo dos ativos financeiros.

A superintendente de Negócios para Pessoa Física da B3, Christianne Bariquelli, afirma que investir deixou de ser uma conversa restrita aos adultos. Cada vez mais famílias estão incluindo filhos e filhas no planejamento financeiro de longo prazo, muitas vezes antes mesmo da adolescência. Essa abordagem não é apenas sobre acumular riqueza, mas sobre criar uma relação diferente com o dinheiro. É sobre entender o tempo, o risco e a recompensa desde cedo, transformando a criança em uma parte ativa do seu próprio futuro financeiro.

Construindo a base do futuro: a educação financeira começa cedo.
Construindo a base do futuro: a educação financeira começa cedo.

Meninas lideram a nova frente

Um dado que chama a atenção e que merece destaque é a evolução da participação feminina. Em quatro anos, o número de meninas investidoras saltou 72%, passando de 14,3 mil para 24,5 mil investidores. Entre os meninos, o avanço foi de 50%, de 24,1 mil para 36,3 mil. Embora as meninas ainda representem uma parcela menor da base total, elas vêm ganhando espaço muito mais rapidamente do que os meninos. Hoje, elas já respondem por quatro em cada dez investidores de até 17 anos no mercado de bolsa.

Esse movimento indica que a aproximação das mulheres com o mercado financeiro está começando cada vez mais cedo. Não é apenas um número, é uma sinalização cultural. A forma como as novas gerações estão sendo formadas, com uma inclusão mais equilibrada dos gêneros nas decisões financeiras, pode ter um impacto profundo na composição do investidor brasileiro no futuro. A liderança das meninas nesse crescimento sugere que a educação financeira está sendo tratada como um direito universal, e não como um privilégio ou uma habilidade exclusiva de um gênero.

O aprendizado compartilhado entre gerações transforma a relação com o dinheiro.
O aprendizado compartilhado entre gerações transforma a relação com o dinheiro.

Onde o dinheiro dos jovens está

O interesse dos menores não está concentrado apenas em ações, embora elas sigam dominando a preferência. Quase 46 mil investidores menores de idade possuem ações em suas carteiras. Cerca de 31,5 mil investem em fundos imobiliários, conhecidos pela renda mensal e pela exposição ao mercado de aluguéis. Há também uma presença notável de ETFs e ativos ligados à diversificação internacional, como BDRs. Essa diversificação é surpreendente para uma faixa etária que, em outras gerações, mal sabia o que era uma corretora.

A distribuição geográfica acompanha o perfil geral do mercado brasileiro. São Paulo concentra a maior base de investidores menores de idade, com 21,8 mil CPFs. O Rio de Janeiro vem em seguida, com 5,6 mil, e Minas Gerais com 5,3 mil. As carteiras mostram preferência por empresas tradicionais, como Petrobras e Vale, mas também pelos fundos imobiliários populares entre investidores pessoas físicas. Essa combinação de ativos clássicos e modernos reflete a busca por segurança e crescimento simultaneamente, uma estratégia que muitos adultos ainda estão aprendendo a dominar.

Olhando para o horizonte: o investimento como ferramenta de liberdade.
Olhando para o horizonte: o investimento como ferramenta de liberdade.

Desafios e a realidade do endividamento

É importante, no entanto, não romantizar essa tendência. Os números mostram uma presença crescente dos jovens no universo dos investimentos, mas não significam que todas as famílias tenham condições de formar uma reserva para os filhos. O acesso aos produtos financeiros é um passo, mas a educação financeira é o verdadeiro diferencial. Em um país marcado pelo endividamento recorde, com o comprometimento da renda das famílias em 28,85% em setembro, segundo o Banco Central, a capacidade de investir é um privilégio que ainda não é universal.

O alerta de especialistas como Raphael Cordeiro, diretor de investimentos da Zelen Family Office, é claro: o endividamento das famílias pode reduzir as compras e pressionar o caixa das companhias. Nesse cenário, a construção de patrimônio para os filhos exige uma disciplina ainda maior. As famílias que conseguem investir em bolsa estão, na prática, usando uma estratégia de longo prazo para proteger seus filhos das instabilidades do curto prazo. É uma forma de garantir que, independentemente das crises econômicas ou do aumento do custo de vida, a próxima geração tenha uma base sólida para construir seu próprio caminho.

Perguntas frequentes

Quanto dinheiro as crianças e adolescentes acumularam em investimentos na bolsa brasileira?

Menores de 18 anos somam aproximadamente R$ 3,5 bilhões em patrimônio aplicado em ações, fundos imobiliários, ETFs e outros ativos. Esse montante representa um salto de 58% em relação ao volume registrado em dezembro de 2022.

Qual é o número total de crianças e adolescentes que possuem investimentos em renda variável?

Mais de 60 mil crianças e adolescentes, todos com até 17 anos, já possuem investimentos em renda variável. Esses jovens acumulam cerca de R$ 3,5 bilhões em patrimônio aplicado no mercado de capitais.

Como a participação das meninas no mercado de investimentos evoluiu nos últimos quatro anos?

O número de meninas investidoras saltou 72%, passando de 14,3 mil para 24,5 mil investidores. Elas já respondem por quatro em cada dez investidores de até 17 anos no mercado de bolsa.

Quais são os principais ativos preferidos pelos investidores menores de idade?

Ações dominam a preferência, com quase 46 mil investidores menores de idade na carteira. Fundos imobiliários vêm em seguida, com cerca de 31,5 mil investidores, seguidos por ETFs e BDRs.

Em qual estado brasileiro se concentra a maior base de investidores menores de idade?

São Paulo concentra a maior base, com 21,8 mil CPFs de investidores menores de idade. O Rio de Janeiro aparece em seguida com 5,6 mil, e Minas Gerais com 5,3 mil.

Por que a tendência de investir para os filhos não é vista como uma realidade universal?

O acesso aos produtos financeiros é um passo, mas a educação financeira é o verdadeiro diferencial. Em um país com comprometimento da renda das famílias em 28,85% em setembro, a capacidade de investir é um privilégio que ainda não é universal.

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