A Lemongrass aponta para uma viragem: menos lugares, mais presença. O que muda na forma como planeamos e vivemos as férias.
Esqueçam a pergunta sobre quantos sítios visitámos. O que realmente importa agora é como nos sentimos quando finalmente fechamos a porta de casa. Esta inversão de prioridades é o cerne das previsões da Lemongrass, a consultora britânica que acaba de lançar o seu relatório anual.
Durante demasiado tempo, o setor obcecou-se com a eficiência. Mais paragens, mais checks, mais personalização artificial. O turista era tratado como uma unidade de processamento, ajustada para extrair o máximo de impressões por hora. Esse modelo está a falhar. As pessoas estão exaustas de ter de otimizar cada segundo do seu dia livre.
A morte da lista de tarefas
Mirjam Peternek McCartney, à frente da Lemongrass, descreve uma mudança de fundo. Não é uma fuga à tecnologia nem uma rejeição do conforto. É uma escolha deliberada por vivências mais lentas e densas. O termo 'férias anti-otimizadas' começa a ganhar peso como a tendência dominante para o próximo ano.
O objetivo é simples: deixar que o dia aconteça. Em vez de correr para marcar itens numa agenda apressada, o viajante prefere ficar mais tempo num único lugar. A ideia é recuperar o que as viagens costumavam dar: calma, a noção real de um sítio ou a liberdade de não ter de estar em lado nenhum em particular.
Esta abordagem exige paciência. Mas é essa paciência que transforma a experiência. O tempo deixa de ser um inimigo a ser vencido e passa a ser um recurso a ser aproveitado. É uma mudança subtil, mas profunda, na forma como concebemos o descanso.

Design para o sistema nervoso
O bem-estar já não é um extra de spa ou um nicho de biohacking. Hotéis e destinos estão a repensar a sua função. Não se trata apenas de oferecer tratamentos, mas de criar ambientes que acalmem o sistema nervoso. É uma mudança de paradigma no setor de hospitalidade.
A tecnologia continua a ter um lugar, mas o seu uso está a ser questionado. O relatório da Lemongrass nota um ceticismo crescente em relação aos roteiros gerados por IA. Os viajantes querem autenticidade, não algoritmos. Querem sentir, não apenas consumir.

O exemplo chinês da viagem lenta
Esta tendência não é apenas ocidental. Na China, o feriado do Dia Nacional revelou uma mudança semelhante. Dados da plataforma Tuniu mostram que as viagens de dez dias ou mais representam 26% das reservas. Os viajantes estão a escolher destinos mais distantes, mas com estadias mais longas.
Yuan You, funcionária de uma empresa de internet, passou três dias de uma folga de 13 dias em Jiuzhaigou. Depois seguiu para Chengdu para tomar aulas de marcenaria. 'O feriado é repleto de atividades, mas mantém um ritmo tranquilo', disse ela. A qualidade do tempo está a superar a quantidade de lugares visitados.

Viagens corporativas e a nova intencionalidade
A mesma lógica aplica-se ao setor corporativo. Fabiano Grottoli, da Mastercard, apresentou no MOVE 2026 a ideia de que as viagens de negócios sobreviveram à transformação digital. Mas mudaram. Não estamos a viajar mais, estamos a viajar melhor.
O Travel Manager deixou de ser um gestor de custos para se tornar um gestor de valor. A fricção é o maior inimigo do compliance. O futuro não pertence a ferramentas melhores, mas a ecossistemas conectados que permitam decisões mais intencionais e humanas.
O novo significado de luxo
O luxo está a ser redefinido. Já não se trata apenas de quartos caros ou serviços impecáveis. Trata-se de ter a liberdade de desfrutar de um momento sem ter de o maximizar. É uma mudança cultural profunda que está a reescrever as regras do turismo.
Em 2027, a pergunta central não será 'o que fiz?', mas 'como me senti?'. É uma abordagem mais humana, mais consciente e, acima de tudo, mais verdadeira. O viajante do futuro não quer ser otimizado. Quer ser vivido.
Perguntas frequentes

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