Presentes nas fachadas das casas, no interior das igrejas e até nas estações de metro, os azulejos são um dos símbolos mais queridos e reconhecíveis de toda a cultura portuguesa, e por trás das suas cores vibrantes esconde-se uma história fascinante que atravessa mais de quinhentos anos de arte e de
Para quem passeia pelas ruas de Lisboa, do Porto ou de praticamente qualquer outra cidade portuguesa, há um elemento decorativo que salta imediatamente à vista e que parece estar presente em toda a parte. Falamos, claro está, dos famosos azulejos, as coloridas placas de cerâmica que revestem fachadas inteiras de edifícios e que se tornaram num verdadeiro ex libris da identidade visual de Portugal.
Uma herança com raízes árabes

Ao contrário daquilo que muita gente possa pensar, a palavra azulejo não tem na verdade qualquer ligação direta com a cor azul, apesar de ser esta a tonalidade mais associada a eles. Na realidade, o termo deriva de uma antiga palavra árabe que significa pedra pequena e polida, uma pista preciosa que nos revela desde logo as origens profundas desta arte milenar.
Foram de facto os povos muçulmanos que, durante a sua longa permanência na Península Ibérica, trouxeram consigo o gosto e também a técnica de revestir as paredes com pequenas peças de cerâmica. No início, estas belas composições eram sobretudo geométricas e abstratas, seguindo fielmente a tradição da arte islâmica, que evitava por norma a representação de figuras humanas nas suas decorações.
O fascínio do rei Dom Manuel
O grande impulso para que o azulejo se enraizasse verdadeiramente em Portugal veio, no entanto, da vontade decidida de um rei. Logo no início do século dezasseis, o monarca Dom Manuel o Primeiro visitou o sul de Espanha e ficou completamente deslumbrado com os belíssimos azulejos que decoravam palácios como o magnífico conjunto da Alhambra, na cidade de Granada.
De regresso ao seu reino, o rei decidiu então mandar importar grandes quantidades destas peças para decorar o seu próprio palácio, situado na vila encantada de Sintra. A partir desse momento, o gosto pela arte do azulejo espalhou se com enorme rapidez por todo o país, deixando de ser um luxo exclusivo da realeza para se tornar numa verdadeira paixão nacional.
O triunfo do azul e branco
Embora os primeiros azulejos fossem bastante coloridos e variados, com o passar dos séculos surgiu a combinação que hoje consideramos mais clássica e elegante de todas. Influenciados pela moda que vinha da longínqua Holanda, os artistas portugueses começaram a produzir painéis apenas em tons de azul sobre um fundo branco, criando assim um efeito de enorme beleza e requinte.
Foi durante os séculos dezassete e dezoito que esta arte atingiu talvez o seu auge mais glorioso e ambicioso de sempre. Surgiram então grandes painéis narrativos, verdadeiros quadros feitos inteiramente de cerâmica, que cobriam paredes inteiras e contavam histórias religiosas, cenas de caça ou grandes episódios da história, com um detalhe e uma mestria absolutamente impressionantes.
Da igreja à rua
Durante muito tempo, os azulejos estiveram sobretudo ligados aos espaços mais nobres e sagrados, como o interior das igrejas, dos conventos e dos palácios da alta sociedade da época. Nestes locais, serviam não só para embelezar os ambientes, mas também para ensinar e transmitir mensagens importantes, uma vez que grande parte da população não sabia ainda ler naquele tempo.
Com o passar do tempo, porém, esta arte acabou por sair das paredes interiores e invadiu alegremente todo o espaço público das cidades. As fachadas de inúmeras casas comuns passaram a ser revestidas de azulejos, não apenas por uma simples questão de beleza, mas também porque este material resistente ajudava a proteger as paredes da chuva, da humidade e do forte calor do verão.
Um museu dedicado à arte
Dada a enorme importância desta arte para o país, não é de estranhar que exista em Lisboa um museu inteiramente dedicado a celebrar e a preservar o azulejo português. O Museu Nacional do Azulejo encontra se instalado num antigo e belíssimo convento, que foi fundado ainda no início do século dezasseis pela devota rainha Dona Leonor.
No seu valioso acervo, considerado um dos maiores do mundo inteiro na área da cerâmica, é possível acompanhar toda a longa evolução desta arte ao longo dos séculos. Uma das peças mais admiradas de todas é um gigantesco painel, composto por mais de mil azulejos, que retrata ao pormenor como era a cidade de Lisboa antes do grande terramoto de 1755.
Uma arte sempre viva
Ao contrário de tantas outras tradições muito antigas, o azulejo português está hoje bastante longe de ser uma simples peça de museu presa para sempre ao passado. Já em pleno século vinte, a decisão de revestir muitas das novas estações do metro de Lisboa com azulejos modernos deu um novo e enorme fôlego a esta arte, despertando o interesse de uma geração inteira.
Ainda nos dias de hoje, muitos artistas contemporâneos continuam a reinventar o azulejo, misturando as velhas técnicas tradicionais com ideias completamente novas e surpreendentes. Caminhar por Portugal é, por tudo isto, como percorrer um imenso museu ao ar livre, onde cada parede revestida nos conta, em cerâmica colorida, mais um pequeno capítulo desta longa e bela história.
Perguntas frequentes

Keep subscribing to João FerreiraHer next filing reaches you the moment it publishes, on her own subdomain.
Subscribe
