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O paradoxo do prato português: longe da dieta mediterrânica que nos pertence

Pedro Gomes Pedro Gomes pedrogomes.avalw.com · 304 reads Respect0 Save Share Read only
READS24live count PUBLISHED21 Sept2026 READING TIME4 min870 words LANGUAGEPortuguese
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Portugal é berço da dieta mediterrânica, mas os dados do Inquérito Alimentar Nacional mostram hábitos bem afastados dela. Carne a mais, legumes a menos e sedentarismo desenham um retrato que convém conhecer.

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Portugal é, por direito próprio, um dos berços da dieta mediterrânica, esse padrão alimentar reconhecido em todo o mundo como um dos mais saudáveis que existem. No entanto, vive-se atualmente um curioso paradoxo. Apesar de esta herança fazer parte da identidade do país, os hábitos alimentares reais dos portugueses têm-se afastado, ano após ano, daquilo que sempre foi a sua matriz. Os números disponíveis ajudam a compreender a dimensão deste desvio.

O retrato do prato português

Uma das fontes mais completas sobre o assunto é o Inquérito Alimentar Nacional, um estudo de referência que ouviu 6.553 portugueses, com idades entre os três meses e os 84 anos. O retrato que dele resulta é preocupante. Segundo os dados apurados, quase seis em cada dez portugueses, o que corresponde a cerca de 5,9 milhões de pessoas, sofrem de obesidade ou encontram-se numa situação de pré-obesidade, um sinal de alerta claro para a saúde pública.

O problema agrava-se com a idade e revela contornos geográficos. De acordo com o mesmo levantamento, entre a população mais idosa, cerca de oito em cada dez pessoas apresentam obesidade abdominal, aquela que se acumula na zona da cintura e que está associada a maiores riscos. A nível regional, os Açores e o Alentejo surgem como as zonas com maior prevalência de excesso de peso, enquanto o Centro e o Norte registam os valores mais baixos.

Carne a mais, legumes a menos

Ao olhar para o conteúdo do prato, os desequilíbrios tornam-se evidentes. Os dados indicam que a população portuguesa consome, em média, o triplo da carne recomendada. Mais concretamente, cerca de 3,5 milhões de pessoas, ou seja, aproximadamente 44 por cento, ingerem mais de 100 gramas de carne por dia. Este consumo elevado de proteína animal contrasta, de forma acentuada, com a escassez de outros alimentos fundamentais no prato diário.

Do lado oposto da balança estão precisamente os alimentos que deveriam ser a base de uma alimentação saudável. Segundo o inquérito, um em cada dois portugueses não come a quantidade recomendada de fruta e de produtos hortícolas. Mais grave ainda, esta inadequação é particularmente elevada entre crianças e adolescentes, o que levanta preocupações sobre os hábitos que estão a ser criados nas gerações mais novas para o resto das suas vidas.

Há ainda um outro dado que merece atenção. De acordo com o estudo, cerca de 21 por cento dos alimentos ingeridos pelos portugueses nem sequer constam da chamada Roda dos Alimentos, o guia visual da alimentação saudável. Nesta fatia entram os refrigerantes, os sumos açucarados e as bebidas alcoólicas. A par disto, o consumo excessivo de sal continua a ser apontado como um dos erros alimentares mais comuns e persistentes.

O peso do sedentarismo

A alimentação é apenas metade da equação; a outra metade é o movimento, e também aí os números não são animadores. Segundo o mesmo inquérito, apenas 41,8 por cento dos portugueses praticam atividade física de forma regular. O padrão varia muito ao longo da vida: as crianças com menos de nove anos são as mais ativas, com cerca de 61 por cento, ao passo que, entre os idosos, esse valor desce para apenas 33 por cento.

Este cenário de má alimentação combinada com sedentarismo tem consequências sérias e de longo prazo. Especialistas alertam que a alimentação inadequada é uma das principais causas evitáveis de doenças crónicas, de perda de qualidade de vida e de mortalidade precoce no país. Há mesmo estimativas de que, nos próximos anos, a má alimentação possa ultrapassar o tabaco como o fator de risco modificável com maior peso na doença em Portugal.

A dieta mediterrânica como bússola

Azeite, ervas aromáticas e produtos frescos são a base de um padrão alimentar que Portugal ajudou a criar (fotografia ilustrativa).
Azeite, ervas aromáticas e produtos frescos são a base de um padrão alimentar que Portugal ajudou a criar (fotografia ilustrativa).

Perante este quadro, a solução não está longe; está, aliás, nas raízes culturais do próprio país. A dieta mediterrânica, reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade, funciona como uma verdadeira bússola. Baseia-se na abundância de fruta, legumes, leguminosas e cereais integrais, no uso do azeite como principal fonte de gordura, no consumo frequente de peixe e num papel bem mais moderado da carne, invertendo a lógica atual.

Traduzir este padrão para o dia a dia é mais simples do que parece. Significa, na prática, encher mais de metade do prato com hortícolas, dar mais espaço às leguminosas como o grão e o feijão, preferir o azeite e reduzir os fritos, comer peixe com regularidade e olhar para a carne vermelha como algo ocasional e não diário. É um regresso a sabores que, em muitos casos, ainda estão bem vivos na memória das famílias portuguesas.

Pequenos passos, grandes efeitos

A boa notícia é que a mudança não exige revoluções radicais nem produtos caros e exóticos. Trocar um refrigerante por água, acrescentar uma peça de fruta ao lanche, incluir uma sopa de legumes ao almoço ou dar uma caminhada diária são gestos pequenos que, somados e mantidos no tempo, produzem grandes efeitos. O envolvimento das famílias e das escolas é decisivo para que estes hábitos se enraízem desde cedo nas crianças.

O esforço já está, aliás, em marcha em várias frentes. Um consórcio internacional prepara-se para avaliar o impacto da dieta mediterrânica na redução da obesidade juvenil, com um estudo clínico que envolverá 240 adolescentes de Portugal, Espanha e Itália. No fundo, o desafio português é feito de reencontro: recuperar, de forma consciente, um modo de comer que o país ajudou a dar ao mundo e que continua a ser um dos seus melhores trunfos de saúde.

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Pedro Gomes 2026-09-21 · 4 min read · 24 reads
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