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O Brasil na rota da China: superávit comercial deve bater US$ 67 bilhões em 2026

Bruno Carvalho Bruno Carvalho brunocarvalho.avalw.com · 3.4k reads Respect0 Save Share Read only
READS2live count PUBLISHED18 Sept2026 READING TIME4 min746 words LANGUAGEPortuguese
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Enquanto os holofotes ficam nas criptomoedas e na tecnologia, é a velha economia das commodities que sustenta as contas do Brasil. Puxado pela soja, pelo petróleo e pelo minério de ferro vendidos à China, o superávit comercial do país caminha para cerca de US$ 67 bilhões em 2026, um novo recorde his

Enquanto boa parte das manchetes financeiras se concentra nas criptomoedas, nas fintechs e nas promessas da nova economia digital, é a velha e conhecida economia das commodities que continua a pagar as contas do Brasil. Silenciosamente, os navios carregados de grãos e minérios que deixam os portos brasileiros estão escrevendo mais um capítulo de recordes na balança comercial do país em 2026.

Um superávit de proporções gigantescas

As projeções para o ano são impressionantes. A expectativa é de que o Brasil feche 2026 com um superávit comercial da ordem de US$ 67 bilhões, um valor ligeiramente superior aos cerca de US$ 63,6 bilhões previstos para 2025. Em outras palavras, o país deve vender ao exterior muito mais do que compra, num ritmo que poucas economias conseguem sustentar.

Os números mensais ajudam a dimensionar essa força. Somente no mês de maio, o Brasil exportou algo próximo de US$ 31,9 bilhões e importou cerca de US$ 24,1 bilhões, deixando um saldo positivo robusto. É esse fluxo constante de dólares entrando no país que fortalece as reservas e dá fôlego à economia diante de um cenário externo cheio de incertezas.

A China no centro de tudo

Não há como contar essa história sem falar da China. O gigante asiático segue como o grande comprador dos produtos brasileiros, respondendo sozinho por cerca de 28 por cento de tudo o que o país embarca para fora. Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com uma fatia bem menor, na casa dos 11 por cento das exportações nacionais.

A relação é tão intensa que apenas o comércio bilateral com a China gera para o Brasil um superávit de aproximadamente US$ 24,9 bilhões. E o apetite chinês só cresce: no primeiro trimestre de 2026, os embarques com destino à China avançaram 21,7 por cento, alcançando cerca de US$ 23,89 bilhões e puxando praticamente sozinhos o crescimento das vendas externas.

A soja que move a balança

Notas e moedas de real. Cada tonelada de soja, cada barril de petróleo e cada carga de minério embarcada rumo à Ásia se converte nos bilhões de dólares que engordam o superávit comercial brasileiro e ajudam a sustentar a moeda nacional.
Notas e moedas de real. Cada tonelada de soja, cada barril de petróleo e cada carga de minério embarcada rumo à Ásia se converte nos bilhões de dólares que engordam o superávit comercial brasileiro e ajudam a sustentar a moeda nacional.

No coração desse comércio está a soja, verdadeira estrela das exportações brasileiras. As vendas do grão para a China alcançaram a marca recorde de 85,4 milhões de toneladas, o que representa cerca de 80 por cento de toda a soja que o Brasil embarca para o mundo. É uma dependência enorme de um único produto e de um único cliente.

A soja, porém, não está sozinha. Em maio, entre os principais produtos vendidos à China apareceram justamente o grão, com cerca de US$ 4,49 bilhões, seguido pelo petróleo bruto, com US$ 2,19 bilhões, e pelo minério de ferro, com US$ 1,38 bilhão. É o trio clássico das commodities que há décadas sustenta a pauta de exportação brasileira.

O agronegócio em festa

Todo esse movimento se traduz em números históricos para o agronegócio nacional, que vive um dos seus melhores momentos. A China, sozinha, chega a comprar cerca de 35 por cento de tudo o que o setor agropecuário brasileiro vende para fora, consolidando o país como uma espécie de despensa do mundo em tempos de demanda crescente por alimentos.

Nem tudo são flores

Por trás dos números celebrados, no entanto, existe um risco silencioso. A forte concentração das exportações em poucas commodities e em um único grande comprador torna o Brasil bastante vulnerável. Qualquer desaceleração da economia chinesa ou uma queda brusca nos preços internacionais dos grãos e dos metais teria impacto imediato e severo sobre as contas do país.

Some se a isso um ambiente global mais tenso, com disputas tarifárias e barreiras comerciais surgindo em diferentes regiões do planeta. Nesse contexto, depender tanto de um punhado de produtos básicos deixa a economia brasileira à mercê de fatores que estão muito além do controle de Brasília e dos empresários do setor.

O outro lado da moeda

Ainda assim, é inegável que o superávit gigantesco traz benefícios concretos no curto prazo. A forte entrada de dólares ajuda a sustentar o real, reforça as reservas internacionais e dá ao país uma posição mais confortável para lidar com choques externos e com as oscilações do humor dos investidores globais.

O que esperar dos próximos meses

O desafio, daqui para frente, será transformar essa bonança das commodities em algo mais duradouro e diversificado. Investir em indústria, em tecnologia e em produtos de maior valor agregado é a receita repetida por economistas para que o Brasil não fique eternamente refém do humor da China e do preço da soja no mercado internacional.

Por ora, contudo, os portos seguem movimentados e os números seguem batendo recordes. Em um ano marcado por tantas incertezas na economia global, o velho e poderoso comércio de grãos e minérios volta a lembrar a todos que, mesmo na era digital, é a terra e o subsolo que ainda sustentam boa parte da riqueza brasileira.

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