Em junho, Lisboa deixa-se tomar pelo cheiro a sardinha assada e pela cor dos manjericos. Um passeio pelas tradições dos Santos Populares, a maior festa de rua da capital portuguesa.
Há uma noite em que Lisboa deixa de pertencer aos guias turísticos e volta a ser dos seus habitantes. Quando chega junho, a cidade enche se de um cheiro inconfundível a sardinha na brasa que sobe pelas escadinhas de Alfama e se cola às paredes azulejadas da Mouraria. As ruas estreitas transformam se num arraial contínuo, com fitas de papel a cruzar o céu e mesas corridas onde vizinhos e forasteiros se sentam lado a lado. São os Santos Populares, a festa mais autêntica da capital.
Uma festa com séculos de história
Por trás de toda esta alegria de rua está uma devoção muito antiga. O dia treze de junho é celebrado há vários séculos pelos lisboetas em honra de Santo António, com origens que remontam a fogueiras e procissões religiosas. Com o passar do tempo, aquela devoção foi ganhando um caráter cada vez mais popular e festivo, até dar origem aos arraiais que hoje conhecemos. A fé silenciosa dos primeiros tempos deu lugar a uma celebração coletiva que mistura o sagrado e o profano com naturalidade.
O santo que nasceu na cidade
Poucos sabem que Santo António é, antes de mais, um filho de Lisboa. Nasceu na cidade por volta do ano mil cento e noventa e cinco, bem junto à Sé, no local onde hoje se ergue a igreja que leva o seu nome. Só mais tarde partiu para Itália, onde se tornou frade franciscano e ganhou fama por toda a Europa. Ficou conhecido como o santo casamenteiro e o protetor das coisas perdidas, dois atributos que ainda hoje enchem de significado as tradições que a cidade lhe dedica.
A rainha da brasa

Se há um símbolo gastronómico destas festas, é sem dúvida a sardinha assada. A ligação entre este humilde peixe e as celebrações tem uma explicação simples e muito portuguesa. É precisamente por esta altura do ano que a sardinha atinge o seu melhor sabor e aparece em enorme abundância nas costas do país, o que a tornava barata e acessível a toda a gente. Assim, o peixe do povo transformou se no prato obrigatório das noites de festa, servido sobre uma fatia de pão.
O ritual do pão e do carvão
Comer uma sardinha assada em condições é quase um pequeno ritual que se aprende desde miúdo. O peixe é colocado sobre a grelha de carvão em brasa, ao ar livre, e vai libertando aquele aroma que anuncia a festa a quarteirões de distância. Depois de bem tostada, a sardinha assenta sobre uma grossa fatia de pão, que absorve os sucos e a gordura e se torna, para muitos, o melhor bocado de todos. Come se com as mãos, sem grandes cerimónias, tal como manda a tradição.
As marchas descem a avenida
Ao lado da mesa, a outra grande estrela das festas é a marcha popular. Todos os anos, os bairros históricos da cidade preparam durante meses os seus grupos, com coreografias, músicas e trajes vistosos, que competem entre si num desfile deslumbrante pela Avenida da Liberdade. Cada bairro leva às ruas o seu orgulho e a sua identidade, ao som de arcos coloridos e de canções que ficam no ouvido. Ver passar as marchas é assistir ao coração popular de Lisboa a bater bem alto.
O amor num vaso de manjerico
Nem só de peixe e música se fazem estas festas, também há lugar para os gestos de afeto. O manjerico, uma pequena planta aromática, tornou se o presente típico destes dias e um verdadeiro emblema dos namorados. A tradição diz que se oferece um vasinho de manjerico à pessoa amada, muitas vezes acompanhado de uma quadra popular espetada num papel. Quem o recebe deve cuidar da plantinha durante um ano inteiro, até ser substituída por outra na festa seguinte.
Os casamentos de Santo António
A fama de casamenteiro do santo dá origem a uma das tradições mais bonitas e emotivas destas festas. Em pleno dia de Santo António, a cidade organiza uma cerimónia coletiva em que vários casais se unem pelo matrimónio, muitos deles com poucos recursos, num gesto de apoio da comunidade. Vestidos a rigor e rodeados de familiares e curiosos, estes noivos protagonizam um momento que junta a solenidade do casamento à alegria contagiante do ambiente festivo que os rodeia.
Os arraiais dos bairros antigos
É nos bairros mais antigos que a festa ganha a sua alma mais verdadeira. Alfama, Mouraria, Bica ou Graça abrem as suas ruas e becos e enchem nos de mesas, grelhadores e pequenos palcos improvisados. Ali, o vinho tinto e o vinho verde correm ao lado das sardinhas e dos chouriços, enquanto a música toca até de madrugada. Estes arraiais de vizinhança, feitos por gente comum e não por grandes empresas, guardam o espírito comunitário que dá sentido a toda a celebração.
A cidade que se abre a todos
Uma das coisas mais especiais destas noites é a forma como a cidade se abre por completo. Não é preciso convite nem bilhete para participar, basta descer à rua e deixar se levar pela multidão. Turistas de passagem e velhos moradores partilham a mesma mesa, o mesmo fumo da grelha e a mesma canção. Poucas festas conseguem esbater assim as fronteiras entre quem é de dentro e quem chega de fora, oferecendo a todos, por umas horas, a sensação de pertencer àquele lugar.
Uma tradição que resiste
Num tempo em que muito do que era autêntico se transforma em espetáculo para vender, os Santos Populares continuam a resistir com uma genuinidade rara. Apesar da enorme afluência de visitantes e de alguns exageros comerciais, o cerne da festa mantém se fiel às suas raízes populares e de bairro. As próximas edições, marcadas como sempre para meados de junho, prometem repetir o ritual de sardinha, manjerico e marcha que atravessa gerações e que os lisboetas guardam com um carinho especial.
O sabor de pertencer
No fundo, procurar as histórias que os jornais esquecem é também isto, sentar se numa mesa de rua em Alfama e perceber que ali, entre o fumo e o riso, se guarda algo essencial. Os Santos Populares não são apenas uma atração turística mais na agenda da cidade, são a memória viva de um povo que sabe celebrar com pouco. Enquanto houver uma sardinha na brasa e um manjerico à janela, Lisboa continuará a lembrar quem é, todos os junhos, nas suas ruas de sempre.

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