Recuperação factual das liquidações decretadas pelo Banco Central e das consequências legais imediatas do escândalo do Banco Master, incluindo a decisão sobre a MW e corretoras ligadas a ex-sócios.
O escândalo do Banco Master deixou de ser apenas uma investigação judicial para se tornar uma onda de liquidações regulatórias que atinge o sistema financeiro brasileiro. Nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição de pagamento MW, sediada em Joinville, Santa Catarina. A medida não é isolada, pois integra uma sequência de ações que já abrangeu quase 20 entidades desde o início do ano, muitas delas conectadas diretamente ao caso Vorcaro.
A pergunta que paira sobre o mercado é clara: onde acaba a responsabilidade individual e onde começa o colapso estrutural? As respostas estão nos despachos do Banco Central e nas decisões do Supremo Tribunal Federal, que mantêm o caso Master sob relatoria especial enquanto a Polícia Federal aprofunda o rastreamento de ativos e responsabilidades. Não se trata de especulação, mas de fatos concretos que redefinem o cenário regulatório e legal neste momento.
A liquidação da MW e as falhas de controle
A decisão sobre a MW Pay foi baseada em graves violações às normas de prevenção à lavagem de dinheiro e combate a fraudes. Segundo interlocutores do Banco Central citados pela reportagem, a instituição também se envolvia com apostas ilegais e descumpriu medidas prudenciais preventivas exigidas para preservar a estabilidade do sistema. A empresa, que oferecia infraestrutura de pagamentos e conectividade direta ao Pix, tinha uma representatividade mínima no ativo total nacional, com participação inferior a 0,0002%.
Com a liquidação, os bens dos controladores e ex-administradores da MW foram imediatamente indisponibilizados. O Banco Central nomeou a Sucesso Consultoria Empresarial como liquidante, sob a responsabilidade técnica de Viviane Paninson. A nota oficial da autoridade monetária deixou claro que continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar responsabilidades, o que pode levar a sanções administrativas e comunicações às autoridades competentes. A MW Pay não se manifestou até a publicação das notícias.

Corretoras ligadas a ex-sócios de Vorcaro
No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação de outras entidades ligadas a um ex-sócio do Banco Master. As notícias do G1, Valor Econômico e InvestNews confirmam que as medidas atingiram corretoras e distribuidoras associadas a Daniel Vorcaro. Essa expansão das liquidações mostra que o escândalo não está restrito ao banco em si, mas permeia a rede de empresas que orbitavam o núcleo do grupo financeiro.
A velocidade das decisões regulatórias reflete a urgência em conter riscos sistêmicos e proteger investidores. O fato de o Banco Central ter anunciado a liquidação de quase 20 instituições desde o início de 2026, parte delas ligada ao caso Master, indica uma postura assertiva da regulação. Não há espaço para ambiguidade: as entidades que falharam nos controles de integridade estão sendo afastadas do mercado.

O papel do STF e a relatoria de Fachin
Enquanto o Banco Central atua na liquidação de ativos, o Supremo Tribunal Federal lida com a dimensão penal e institucional do caso. O presidente da Corte, Edson Fachin, decidiu manter o inquérito do Banco Master sob sua relatoria, mesmo após devolver ao ministro André Mendonça a investigação sobre o INSS. Essa decisão foi publicada nesta quinta-feira, 29 de outubro, e mantém o caso Master sob o comando direto de Fachin até que o plenário analise pedidos de investigação contra integrantes da própria Corte.
A complexidade jurídica aumenta com o relatório da Polícia Federal que cita o ministro Alexandre de Moraes em mensagens de Vorcaro, supostamente pedindo orientação jurídica e intercessão junto a autoridades. Fachin determinou que esse relatório seja encaminhado diretamente a ele assim que concluído. O ministro Alexandre de Moraes acusou Mendonça de direcionar as investigações com motivação política, mas a Procuradoria-Geral da República afastou essas alegações, afirmando não haver indícios de irregularidades na atuação de Mendonça.

Depoimentos e a origem do acordo
O escândalo do Banco Master ganhou novos contornos com o depoimento de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), que está preso. Em declaração à Polícia Federal, Costa afirmou que o acordo de venda do BRB ao Banco Master foi definido em uma reunião entre Daniel Vorcaro e o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Segundo o relato, Ibaneis teria dito: “Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”.
A reunião ocorreu em 24 de setembro de 2024, na residência de Vorcaro, e contou com a presença de cerca de sete pessoas. Costa disse que recebeu a mensagem pelo gabinete do governador enquanto estava na Bahia e tentou evitar o encontro, mas acabou participando. Ele reconheceu que o acionista controlador do BRB é o Governo do Distrito Federal, o que explicaria sua obrigação de cumprir a determinação, mesmo tendo se posicionado contra a privatização anteriormente por considerar o banco estratégico para o DF.
Consequências legais e próximos passos
A defesa de Ibaneis Rocha, liderada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, nega veementemente as acusações, afirmando que o ex-governador jamais sugeriu ao presidente do BRB que tomasse qualquer decisão no sentido de vender o banco. Essa disputa narrativa adiciona uma camada de complexidade ao caso, que agora envolve não apenas questões financeiras, mas também a integridade de figuras públicas e a governança de bancos públicos.
O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou as contas do Banco Central de 2025 após desvincular o processo do Master, o que indica que a instituição reguladora está mantendo sua independência operacional apesar da turbulência. O caso Master continua a ser um teste de fogo para a resiliência do sistema financeiro brasileiro. Com a liquidação de mais entidades e a aprofundamento das investigações penais, os próximos meses serão decisivos para entender o alcance final desse escândalo e suas implicações para o mercado.
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