Moda pra mim nunca foi passarela, é a feira e a esquina do Rio. E hoje a esquina inteira parece ter descoberto o brechó. Vim contar por que a roupa usada deixou de ser vergonha e virou o jeito mais esperto, e mais bonito, de se montar no Brasil.
Não me pergunte qual é a tendência da estação, porque eu vou continuar falando do que enxergo no ponto de ônibus, na feira e na esquina do Rio. E de uns tempos pra cá tem uma coisa que ficou impossível de ignorar: a esquina inteira parece ter descoberto o brechó. Roupa usada, que antigamente muita gente escondia, virou orgulho, virou conversa de mesa de bar e virou estilo de vida.
O Brasil se rende ao usado
E não é impressão minha de quem anda muito na rua. Segundo levantamentos recentes do setor, o país já reúne mais de cento e dezoito mil brechós em atividade, um número que cresceu por volta de trinta e um por cento nos últimos cinco anos. Ou seja, a cada esquina que a gente vira, é bem provável que exista uma arara de roupa de segunda mão esperando alguém chegar pra garimpar.
Um mercado que movimenta bilhões
O que era coisa de bazar de fundo de quintal virou economia de gente grande. De acordo com dados do Sebrae, só no estado de São Paulo a abertura de brechós cresceu cerca de cinquenta por cento em relação a antes da pandemia, e as estimativas apontam que o setor deve movimentar algo perto de vinte e quatro bilhões de reais ao longo deste ano. É dinheiro de verdade circulando em cima de roupa que já tinha dono.
Quem está comprando
E quem está por trás desse movimento todo? Segundo estudos de consultoria, a roupa de segunda mão já responde por cerca de doze por cento das peças no guarda roupa do brasileiro, e a faixa entre dezoito e quarenta e quatro anos concentra perto de sessenta e oito por cento das compras. Entre a geração mais nova, o hábito é ainda mais forte, com muita gente colocando o usado como primeira opção antes de pensar em comprar algo novo.
A onda que vem de fora
E isso não é só uma febre nossa, é uma onda que atravessa o mundo. As projeções internacionais indicam que o mercado global de roupa de segunda mão pode passar do equivalente a mais de um trilhão de reais até o fim desta década, crescendo várias vezes mais rápido do que a moda descartável de preço baixo. O Brasil, com sua criatividade de rua, está entrando nessa história do jeito que sabe fazer.
Vestir sem pesar no planeta
Tem também o lado que eu acho mais bonito de tudo, que é o cuidado com o mundo em que a gente vive. Estudos sobre o tema mostram que dar uma segunda vida a uma peça pode reduzir em boa parte o impacto sobre o clima e o gasto de energia ligado à sua produção, já que ninguém precisa fabricar nada do zero. Comprar usado, no fundo, é uma forma silenciosa de respeitar o planeta.
Do bazar de igreja ao aplicativo

O brechó também mudou de cara e de endereço. Ele saiu do bazar da igreja e da feirinha de rua e foi parar no celular, com perfis e aplicativos onde a peça é fotografada, medida e enviada pelo correio. Para o ano de dois mil e vinte e seis, essa versão digital promete crescer ainda mais, misturando a praticidade da tela com aquele prazer antigo de descobrir um tesouro escondido.
Garimpo é paciência
Agora, vou ser honesta com você: brechó não é pra quem tem pressa. É preciso paciência pra passar a mão por cada cabide, olhar costura, cheirar o tecido, experimentar sem medo de errar. O barato do garimpo é justamente esse, o de sair com uma peça que ninguém mais vai ter igual, por um preço que a loja do shopping jamais conseguiria te oferecer numa roupa parecida.
Não é sobre ter pouco, é sobre ter atitude
E eu faço questão de bater nessa tecla, porque ainda tem gente que torce o nariz. Comprar em brechó parou há muito tempo de ser sinal de quem não pode, e virou sinal de quem sabe. Sabe economizar, sabe misturar, sabe montar um visual que tem cara e história. No fim das contas, é sobre ser esperto e ter atitude, e não sobre o tamanho do bolso de cada um.
Cada peça tem uma história
O que mais me encanta é imaginar a vida que a roupa teve antes de chegar em mim. Aquela jaqueta já foi a um casamento, aquele vestido já dançou num aniversário, aquela camisa já foi presente de alguém. Quando visto uma peça de brechó, eu não estou só me cobrindo, eu estou dando continuidade a uma história que começou antes de eu sequer saber que ela existia.
O Rio me ensinou a improvisar
Talvez seja por ser do Rio que eu enxergo tanta beleza nisso tudo. Aqui a gente aprende cedo a se montar com o que tem e a fazer sobrar atitude, seja numa laje, numa roda de samba ou numa saída de praia. O brechó cai como uma luva nessa lógica, porque ele premia quem tem olho, quem tem ousadia e quem não precisa de etiqueta cara pra se sentir bem na própria pele.
A feira, a esquina e o futuro
Então, da próxima vez que passar por um brechó, entra sem preconceito e sem pressa. Deixa o dedo correr pelas araras, aceita o convite de uma cor que você nunca usaria, prova aquilo que parece não ser seu. A feira, a esquina e o guarda roupa do futuro estão sendo remontados, peça por peça, por quem entendeu que se vestir bem é, antes de tudo, um gesto de imaginação.
Ótima cobertura sobre roupa usada.
