O criador de Dragon Quest provou que 30 minutos chegam para um jogo completo. Mas a Intel e a BCG alertam que o próximo capítulo da IA será definido por preço, execução autónoma e a capacidade de decidir sozinho em redes reais.
Yuji Horii, a lenda por trás da franquia Dragon Quest, surpreendeu o mundo da tecnologia ao demonstrar que apenas 30 minutos são suficientes para construir um jogo completo utilizando inteligência artificial. No dia 11 de outubro, o criador japones gastou esse breve intervalo de tempo a desenvolver um título intitulado Komiya na Sala de Interrogatório, onde o jogador assume o papel de um detetive que questiona um suspeito de 72 anos sobre um roubo. A mecânica central do jogo exige que o utilizador identifique as mentiras do interrogado sem aplicar demasiada pressão, sob pena de este se calar, uma dinâmica que prova a funcionalidade do produto final. Horii partilhou o feito na rede social X, admitindo estar impressionado com a rapidez do processo. Num passado recente, durante a era de Portopia Continuous Murder Case, este criador realizava sozinho a história, os desenhos e a codificação. Hoje, o seu papel reduziu-se a dar instruções à máquina, resultando num jogo jogável no browser que ilustra uma mudança profunda na velocidade de criação de conteúdo digital.
A velocidade de Horii vs a infraestrutura da MEO
Enquanto Yuji Horii celebra a criação de um produto de entretenimento em meia hora, a MEO e a Nokia estão a trabalhar em conjunto para que as redes de telecomunicações portuguesas comecem a operar de forma autónoma. O programa de inovação anunciado tem como objetivo principal introduzir inteligência artificial e automação avançada em infraestruturas reais, permitindo que a rede identifique alterações no seu próprio funcionamento, preveja futuras necessidades de capacidade e responda com uma rapidez sem precedentes. Esta abordagem não se foca na geração de conteúdo criativo, mas sim na garantia de que a infraestrutura técnica decide e age com base em recursos de IA que estão integrados desde a fase inicial de desenho da rede. O resultado esperado é uma infraestrutura significativamente mais inteligente, resiliente e autónoma, capaz de gerir a monitorização contínua e a otimização de recursos sem a necessidade de uma intervenção humana constante, o que representa um salto qualitativo na gestão de redes de telecomunicações em Portugal e possivelmente noutros mercados europeus.

O peso do preço nos modelos chineses
Durante um painel realizado em Singapura, Lip-Bu Tan, o atual CEO da Intel, destacou um fator que está a mudar as regras do jogo no setor global da inteligência artificial: o preço. Tan apontou que modelos desenvolvidos na China, como o DeepSeek, o Kimi e o GLM, apresentam custos por token significativamente inferiores aos dos seus concorrentes ocidentais, uma vantagem que se torna crítica para empresas que processam milhões de pedidos diariamente em áreas como atendimento ao cliente ou programação assistida. A diferença de custos acumula-se de forma exponencial e torna-se decisiva para a viabilidade económica de grandes operações empresariais. Tan não afirma que os modelos chineses são tecnicamente superiores em todos os aspetos, mas sublinha que o seu desempenho já é suficientemente robusto para a maioria das aplicações empresariais atuais. O mercado deixou de escolher modelos apenas com base nos melhores resultados em testes de desempenho isolados e passou a considerar o custo operacional total. A State Street Global Advisors reforça esta ideia, notando que a evolução chinesa já não depende de um único lançamento disruptivo, mas de uma sucessão constante de modelos eficientes ao longo de 2026, o que altera a dinâmica competitiva global e faz com que a eficiência comercial pese tanto ou mais do que a liderança técnica pura.

A inversão do valor segundo a BCG
Eduardo Bicacro, especialista da BCG em Lisboa, descreve uma inversão económica profunda que muitas equipas de gestão tradicionais ainda não conseguiram interiorizar completamente. Durante duas décadas, o valor do software foi diretamente proporcional ao número de utilizadores ativos, um modelo de negócio que premiou a escala de adoção. No entanto, com a análise de mais de mil startups norte-americanas pela nova geração de consultores, o valor passa a depender dos resultados concretos entregues ao cliente final. Estas empresas emergentes não se limitam a construir carros mais rápidos, mas sim um sistema de transportes completamente novo e integrado. Elas são capazes de tomar decisões complexas, gerir exceções de forma autónoma e completar processos de ponta a ponta sem intervenção manual. Se um concorrente começa a faturar com base no resultado final entregue, enquanto a sua empresa continua a cobrar apenas pelo acesso à ferramenta, o modelo de negócio tradicional fica vulnerável a disrupções. A BCG aponta que estas organizações estão a reconstruir as suas arquiteturas técnicas em torno dos limites atuais da IA, extraindo valor de dados que anteriormente ficavam por aproveitar, criando uma nova categoria de empresas definidas pela capacidade de execução e não apenas pela capacidade de processamento.

IA responsável e o papel das universidades
Enquanto o setor privado acelera a corrida para a eficiência operacional e a autonomia técnica, a Universidade de Coimbra prepara o lançamento da DEFIA Portugal Network nesta quinta-feira, marcando um passo crucial na governação da tecnologia no país. Esta rede nacional pretende promover ativamente o uso responsável e sustentável da inteligência artificial no ensino superior, reunindo a maioria das instituições académicas de Portugal num esforço coordenado. Patrícia Pereira da Silva, vice-reitora, defende que a IA deve desenvolver-se estritamente dentro de limites centrados no ser humano, garantindo transparência nos processos e a realização de avaliações independentes para evitar vieses ou danos. A iniciativa integra a Digital Education for Impact Alliance, uma aliança internacional cofundada pela GeSI e pela própria Universidade de Coimbra, o que confere um alcance e uma credibilidade adicionais ao projeto. O objetivo central não é travar a inovação ou limitar o progresso técnico, mas garantir que ela serve a sociedade no seu conjunto, transformando compromissos globais em ações concretas e mensuráveis a nível nacional. Esta rede servirá como um modelo de referência para o desenvolvimento de iniciativas semelhantes noutras regiões, focando-se intensamente na literacia digital e na capacitação de estudantes e docentes para navegar este novo paradigma tecnológico com ética e competência.
Conclusão
O que está a acontecer no setor tecnológico não é apenas uma corrida de modelos de linguagem ou a curiosidade de jogos criados em 30 minutos, mas sim uma reestruturação profunda da forma como a tecnologia é valorizada, operada e regulada globalmente. De um lado, temos a velocidade de criação de Horii e a eficiência de custo dos modelos chineses que pressionam os preços no mercado. Do outro, existe a busca por autonomia nas redes da MEO e a redefinição do valor comercial pela BCG, que muda as métricas de sucesso empresarial. E no meio deste cenário complexo, surge a necessidade de uma governação sólida que permita inovar sem perder o controlo ético e social, como defende a Universidade de Coimbra através da sua rede. A inteligência artificial está a deixar de ser uma simples ferramenta de assistência passiva para se tornar um agente de execução autónoma com capacidade de decisão. A pergunta que fica não é se a tecnologia vai mudar, pois isso é inevitável, mas se as estruturas de negócio e de regulação conseguirão acompanhar essa velocidade de transformação sem perder o rumo e a humanidade no processo.
Perguntas frequentes

Keep subscribing to Joana SilvaHer next filing reaches you the moment it publishes, on her own subdomain.
Subscribe
