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O silêncio dos dados: o que a IA esconde sobre nós

Joana Silva Joana Silva joanasilva.avalw.com · 2.6k reads Respect0 Save Share Read only
READS21live count PUBLISHED3 Oct2026 READING TIME3 min675 words LANGUAGEPortuguese
AI CITATIONS? Gathering data

A penetração da IA em Portugal é massiva, mas esconde uma fissura crítica: a ausência de dados oficiais sobre o seu impacto real no mercado de trabalho e na economia.

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Dois em cada três portugueses já tocaram numa ferramenta de Inteligência Artificial. É um número que, lido a frio, parece apenas mais uma estatística de adoção tecnológica. Mas quando cruzamos essa realidade com os relatórios do Instituto Nacional de Estatística, aparece um vazio desconfortável. As empresas estão a usar IA, o público está a usar IA, e no entanto os dados oficiais sobre o impacto concreto no emprego e na produtividade continuam a ser, na melhor das hipóteses, incompletos.

Não se trata de alarmismo. Trata-se de uma lacuna. A RTP e o SIC Notícias reportam uma utilização generalizada, mas o que falta é a métrica de resultado. Quantos postos de trabalho foram reconfigurados? Quanto tempo foi ganho? A resposta, por agora, é o silêncio dos dados. E em tecnologia, o silêncio raramente é neutro.

A adoção que não se mede

O ChatGPT é, segundo a RTP, a ferramenta mais usada em Portugal. Isso é um facto concreto, verificável nas inquéritos de utilização. Mas o facto de ser a mais usada não diz nada sobre a qualidade do uso. Estamos a falar de uma ferramenta que gera texto, código e ideias, mas que também gera uma dependência cognitiva que os estudos académicos ainda estão a tentar mapear. A adoção é rápida. A compreensão é lenta.

As empresas, por sua vez, estão a acelerar. A RTP, citando o INE, aponta para um aumento constante no número de organizações que integram IA nos seus processos. Mas o INE, em muitas das suas tabelas públicas, não ancora ainda a IA como categoria económica própria, isolada do software geral ou dos serviços de TI. Isso significa que o impacto real, a produtividade por hora, a redução de custos, tudo isso fica diluído em categorias amplas que não permitem uma análise fina.

O escritório vazio: onde a IA opera em silêncio.
O escritório vazio: onde a IA opera em silêncio.

O laboratório de Lisboa

A Lisbon AI Week, segundo o Observador, quer transformar a capital num laboratório vivo. A ideia é boa: testar, falhar, iterar. Mas um laboratório sem medição é apenas um teatro. Se a IA vai dominar o ano de 2024, como sugere o Tek Notícias, então a pergunta não é se ela está presente, mas se estamos a medir a sua presença com a precisão que a economia portuguesa exige.

A Forbes Portugal listou oito tendências para o ano. Nenhuma delas, de forma explícita, aponta para a criação de um novo padrão de medição estatística. E é aí que está o risco. Não no uso, mas na cegueira. Estamos a correr num corredor onde não há cronómetro.

O Tejo reflete a cidade, mas não os seus dados.
O Tejo reflete a cidade, mas não os seus dados.

O custo da invisibilidade

Quando não medimos, não gerimos. Quando não gerimos, não otimizamos. O risco de a IA em Portugal ser adotada de forma massiva, mas sem uma compreensão clara do seu retorno sobre o investimento, é um risco sistémico. Não é um risco de segurança, não é um risco de privacidade, pelo menos não ainda. É um risco de eficiência. De desperdício. De dinheiro público e privado a ser gasto em ferramentas que podem estar a subaproveitar o seu potencial real.

As empresas que estão a usar IA estão a fazê-lo muitas vezes por medo de ficar para trás, não por uma análise fria de custos e benefícios. E os cidadãos estão a usá-la por conveniência ou por curiosidade. Nenhum dos dois grupos tem, por enquanto, a ferramenta de análise que lhes permita dizer: isto está a funcionar, e isto está a falhar.

A arquitetura da inovação, iluminada, mas sem métricas.
A arquitetura da inovação, iluminada, mas sem métricas.

O que falta para 2025

O ano de 2024 vai terminar com a IA em todo o lado. Em 2025, a pergunta não deve ser mais uma sobre o que a IA pode fazer. A pergunta deve ser sobre o que estamos a medir. Se o INE, as universidades e as grandes empresas não começarem a criar uma nova taxonomia de dados, centrada no impacto real da IA na economia portuguesa, vamos continuar a navegar às cegas.

A tecnologia não é o problema. A falta de dados é. E enquanto não formos capazes de separar o ruído do sinal, o hype da inovação vai continuar a mascarar a realidade da eficiência. O silêncio dos dados é o maior inimigo da inteligência artificial em Portugal. E é o único que podemos, e devemos, quebrar.

Perguntas frequentes

Qual é a principal lacuna identificada no uso da IA em Portugal segundo o artigo?

A ausência de dados oficiais completos sobre o impacto concreto da inteligência artificial no emprego e na produtividade. Embora a adoção seja generalizada, os relatórios do Instituto Nacional de Estatística não isolam a IA como categoria económica própria, impedindo uma análise fina dos resultados.

Por que razão o INE não consegue medir com precisão o impacto da IA na economia?

O Instituto Nacional de Estatística ainda não ancora a inteligência artificial como uma categoria económica isolada nas suas tabelas públicas. Os dados ficam diluídos em categorias amplas de software geral ou serviços de TI, o que impede a medição específica de métricas como a produtividade por hora ou a redução de custos.

Qual ferramenta de IA é a mais utilizada em Portugal de acordo com a RTP?

O ChatGPT é identificado como a ferramenta de inteligência artificial mais usada no país. Apesar desta alta taxa de adoção, o artigo destaca que o facto de ser a mais utilizada não garante que o uso seja de qualidade ou que se compreenda plenamente a sua dependência cognitiva.

Que risco sistémico surge da adoção massiva de IA sem medição adequada?

O principal risco é a ineficiência e o desperdício de recursos públicos e privados. Sem ferramentas de análise que permitam distinguir o que funciona do que falha, as empresas e cidadãos gastam dinheiro em ferramentas que podem estar a subaproveitar o seu potencial real, movidas por medo de ficar para trás ou por conveniência.

O que o artigo sugere que deve acontecer em 2025 para resolver o problema da invisibilidade dos dados?

É necessário que o INE, as universidades e as grandes empresas criem uma nova taxonomia de dados centrada no impacto real da IA na economia portuguesa. A pergunta central para o próximo ano deve focar-se no que está a ser medido, em vez de apenas no que a tecnologia pode fazer.

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Joana Silva 2026-10-03 · 3 min read · 21 reads
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