Com cinco mil startups e uma forte aposta na deep tech, Portugal quer marcar posição na IA. Mas o diretor da Startup Portugal alerta para a fuga de talento, os impostos e o atraso europeu.
Portugal quer deixar de ser apenas um consumidor de tecnologia para se tornar um produtor reconhecido no campo da inteligência artificial. O país vive um momento de grande efervescência, com um ecossistema de startups em franco crescimento e uma aposta clara na inovação. Ainda assim, por baixo deste otimismo, persistem obstáculos estruturais que podem travar o ritmo desta ambição.
Um ecossistema de cinco mil startups
A dimensão do fenómeno é considerável. Segundo os dados disponíveis, Portugal conta atualmente com cerca de cinco mil startups espalhadas pelo país. Os setores mais fortes deste universo são a inteligência artificial e o software, a energia e o clima, a deep tech, as fintech e ainda áreas como a proptech, o turismo e a logística, refletindo uma base tecnológica bastante diversificada.
A aposta na deep tech
Entre todas estas frentes, é a chamada deep tech que concentra as maiores esperanças. As empresas que cruzam ciência e tecnologia são apontadas como as que têm mais potencial para se tornarem líderes globais, com casos como a Sword Health e a Tekever a servirem de referência. É neste território mais exigente e ambicioso que Portugal procura afirmar-se de forma duradoura.
Programas para acelerar

O Estado tem procurado dar um empurrão a este movimento com programas específicos. O novo programa de aceleração dedicado à deep tech, batizado de Tech Foundry Portugal, vai contar com 31 projetos científicos e tecnológicos, escolhidos de entre 98 candidaturas. É um sinal de que a procura por apoio nesta área supera largamente a oferta disponível.
A norte, a cidade do Porto prepara-se para receber outra iniciativa de peso. As candidaturas ao programa de incubação da chamada Fábrica de IA do BSC estiveram abertas até 15 de setembro, e o programa decorrerá entre 5 de outubro de 2026 e 30 de março de 2027. Estas estruturas pretendem ajudar startups e pequenas empresas a transformar ideias em produtos concretos.
Casos que já se destacam
Há já exemplos concretos a mostrar o caminho. A startup Clustie quer tornar os investimentos em publicidade mais eficazes com recurso à inteligência artificial, contando com clientes como o FC Famalicão, a MEO Marés e o Dubai Basketball. Já a lisboeta Vericasa, dedicada a contratos de compra e venda de imóveis com apoio da tecnologia, chegou a vencer um pitch na Califórnia.
Os alertas da Startup Portugal
Nem tudo, porém, são boas notícias. Miguel Aguiar, diretor executivo da Startup Portugal, tem sido franco ao apontar os principais entraves ao desenvolvimento do setor. Na sua leitura, o país avança, mas fá-lo talvez mais devagar do que deveria, sobretudo por causa de barreiras que se arrastam há demasiado tempo e que urge remover.
O primeiro grande problema é a retenção de talento. Portugal forma engenheiros todos os anos, mas tem dificuldade em mantê-los cá, num paradoxo que o próprio responsável resume dizendo que o país importa e exporta profissionais ao mesmo tempo. Muitos dos melhores acabam por procurar oportunidades no estrangeiro, deixando um vazio difícil de preencher.
O segundo obstáculo é de natureza fiscal e administrativa. Segundo Aguiar, a burocracia e os impostos são demasiado elevados, o que dificulta o arranque e o crescimento das jovens empresas. Este peso acrescido consome tempo e recursos que poderiam, de outra forma, ser canalizados para a inovação e para a conquista de novos mercados.
A Europa a ficar para trás
O terceiro alerta ultrapassa as fronteiras nacionais. Na opinião do responsável, a Europa está a ficar um bocadinho para trás em relação a outras regiões do mundo na corrida à inteligência artificial. É um aviso que coloca o caso português dentro de um problema continental mais amplo, no qual a rapidez de decisão e de investimento faz toda a diferença.
Uma visão a dez anos
Apesar dos reparos, a ambição mantém-se elevada. Aguiar defende uma visão a dez anos que coloque Portugal numa posição de destaque no setor, algo que dependerá de investir e reter talento, remover barreiras regulatórias e fiscais e combinar infraestrutura de centros de dados, soberania e capital humano. A própria Startup Portugal levou 27 startups à Web Summit Rio de 2026, mostrando vontade de projeção internacional.
No fim de contas, o retrato de 2026 é o de um país cheio de potencial, mas ainda a lutar para o concretizar por inteiro. Se conseguir segurar os seus talentos, aliviar o peso da burocracia e apostar de forma consistente na deep tech, Portugal poderá afirmar-se como um dos nomes a ter em conta no mapa europeu da inteligência artificial nos próximos anos.

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