A 83.ª edição do Festival de Veneza arranca com um júri presidido por Maggie Gyllenhaal e um filme de abertura assinado por Danny Boyle. Olhamos, apenas com base no que já foi anunciado, para as datas, os nomes e o que está em jogo no primeiro grande festival do outono.
Há um momento no calendário do cinema em que todos os olhares se viram para a lagoa de Veneza. É quando o Lido volta a encher-se de estrelas, de câmaras e de expectativa, e a mais antiga mostra de cinema do mundo levanta oficialmente a cortina. Neste ano de 2026, esse momento chegou de novo, e com ele o pontapé de saída para a longa temporada de prémios que se estende até à primavera.
Neste artigo limitamo-nos ao que já foi oficialmente anunciado, sem adiantar vencedores nem alimentar especulações. A ideia é olhar com calma para as datas, para os nomes que compõem o júri, para o filme de abertura e para aquilo que verdadeiramente está em jogo neste que é o primeiro grande festival do outono cinematográfico.
As datas e a moldura do festival
Comecemos pelo essencial. A 83.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza decorre entre 2 e 12 de setembro de 2026, mantendo a tradição de abrir a rentrée dos grandes certames. O evento é organizado pela Biennale di Venezia e continua sob a direção de Alberto Barbera, que há vários anos molda a identidade e o prestígio da mostra.
Essa moldura institucional não é um mero detalhe burocrático. É precisamente a estabilidade da organização que tem permitido a Veneza afirmar-se como uma rampa de lançamento para muitos dos títulos que, meses depois, dominam as conversas sobre prémios. O festival tornou-se, ao longo do tempo, num termómetro fiável daquilo que aí vem.
Um júri de peso
A missão de escolher os premiados cabe este ano a um júri presidido pela realizadora, atriz e argumentista Maggie Gyllenhaal, um nome respeitado tanto à frente como atrás da câmara. A sua presidência dá o tom de uma edição que aposta em olhares criativos e exigentes para avaliar a competição principal ao longo dos dias de festival.
Ao seu lado senta-se um painel deliberadamente internacional e diverso. Fazem parte dele a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania, o compositor britânico Daniel Blumberg, o professor italiano Francesco Casetti, o realizador francês Xavier Giannoli, a cineasta afegã Shahrbanoo Sadat e o veterano realizador e produtor de Hong Kong Johnnie To. É uma mesa que cruza geografias e gerações.
A abertura entregue a Danny Boyle

A honra de abrir a edição de 2026 coube a Danny Boyle. O realizador britânico apresenta, a 2 de setembro, o drama biográfico intitulado «Ink», protagonizado por Guy Pearce no papel do magnata dos media Rupert Murdoch. É uma escolha de abertura com potencial para gerar conversa, ao cruzar cinema de autor com uma figura poderosa e controversa da imprensa.
Escolher um filme de abertura é sempre uma declaração de intenções. Ao confiar essa tarefa a um cineasta com o percurso de Boyle, o festival sinaliza desde logo a ambição da sua seleção. A abertura funciona como um cartão de visita, definindo o clima com que o público e a crítica vão encarar os dias seguintes de projeções.
Vinte filmes, todos estreias mundiais
No coração do festival está, como sempre, a competição principal. Para a Competição de Veneza 83 foram selecionadas vinte longas-metragens, e há um pormenor que aumenta a expectativa em torno delas. Todas serão apresentadas como estreias mundiais, o que significa que o Lido será o primeiro lugar do planeta a vê-las diante de uma plateia.
Entre os realizadores mais aguardados desta edição encontram-se nomes que dispensam grandes apresentações. Falamos de figuras como Danny Boyle, Werner Herzog, Hirokazu Kore-eda, Lee Chang-dong, Martin McDonagh, Nanni Moretti e Casey Affleck. É uma constelação que junta mestres consagrados a vozes singulares do cinema contemporâneo mundial.
O pontapé de saída da época de prémios
O peso de Veneza vai muito para além dos seus próprios troféus. Ao acontecer no início de setembro, o festival dá tradicionalmente o tiro de partida para a chamada época de prémios, aquele longo percurso que culmina meses depois na noite dos Óscares. Muitos dos favoritos dessa corrida começam precisamente aqui a construir a sua reputação.
É por isso que críticos, distribuidores e jornalistas de todo o mundo acorrem ao Lido com tanta atenção. O que ali acontece nos primeiros dias de setembro costuma ecoar durante meses, moldando expectativas e lançando conversas que só terminam quando as estatuetas finalmente são entregues do outro lado do Atlântico.
O que fica por decidir
Convém sublinhar que, neste momento, o mais importante ainda está por acontecer. O Leão de Ouro, o galardão máximo do festival, só será conhecido no encerramento, pelo que qualquer prognóstico seria hoje apenas isso mesmo, um palpite. Cabe ao júri de Gyllenhaal ponderar as vinte propostas e decidir qual delas merece entrar para a história.
Essa incerteza é, no fundo, parte do encanto. A diversidade da competição, com realizadores vindos de contextos tão distintos, garante que o resultado dificilmente será consensual ou previsível. E é justamente essa imprevisibilidade que mantém Veneza no centro das atenções, ano após ano, edição após edição.
Um olhar a partir de Portugal
Também para quem acompanha o cinema a partir de Portugal, Veneza é uma referência incontornável. Muitos dos filmes que este ano passam pelo Lido vão acabar por chegar às salas e às plataformas portuguesas nos meses seguintes, pelo que seguir o festival é, na prática, espreitar aquilo que em breve estará ao nosso alcance enquanto espectadores.
No fim de contas, a Mostra de 2026 volta a lembrar-nos por que razão os grandes festivais continuam a importar. Num tempo em que o consumo de imagens se fragmenta em mil ecrãs, Veneza reafirma o valor da experiência coletiva e da descoberta partilhada. E é com essa promessa que a lagoa se prepara, mais uma vez, para acender as luzes da sala.
Mostra: melhor tratado que em outros lugares.

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