A Ancord divulgou dados que mostram um crescimento de 2.635 novos assessores em 2026. Analisamos a corrida por qualificação e o peso do juro alto nesse cenário.
A cifra de 2.635 novos nomes na lista da Ancord não é apenas estatística; representa pessoas reais entrando num mercado que já conta com 26.679 credenciados até setembro. O crescimento é visível, mas esbarra na dura realidade de um cenário onde o custo do dinheiro segue elevado e a desconfiança do investidor atinge níveis críticos.
Com a Selic recuada para 13,75% ao ano, o ambiente ainda é hostil para quem lida com patrimônio. Rafael Furlanetti, presidente da Ancord, vê na entrada de novos profissionais uma oportunidade de ampliar o alcance do atendimento, mas deixa claro que volume sem substância é perigoso. A formação contínua não é luxo, é pré-requisito para que esses números não se tornem apenas papel timbrado.
A corrida pela credencial
Dos mais de 26 mil assessores, 20.413 mantêm vínculo direto com instituições dos mercados financeiro e de capitais. O avanço de 2,6% em um ano pode parecer modesto, mas num setor maduro significa centenas de novos profissionais revisando carteiras e mapeando riscos em produtos que se tornaram cada vez mais intricados.
A demanda por orientação cresce justamente quando a incerteza domina a pauta. Com inflação pressionada e crédito restrito, o investidor abandonou a postura passiva de apenas guardar dinheiro. Agora, ele exige clareza sobre se o rendimento supera o custo de oportunidade. O assessor precisa ter domínio técnico absoluto para não empurrar produtos que não compreende.

O peso da Selic alta
Os juros são o termômetro do mercado brasileiro. Desde 16 de setembro, a Selic opera em 13,75% ao ano, após o corte unânime de 0,25 ponto percentual do Copom, com a próxima decisão agendada para 3 e 4 de novembro. Para as áreas financeiras corporativas, essa trajetória gradual de queda impõe a necessidade de planejamento com crédito caro e margens de lucro apertadas.
O encarecimento da dívida corrói o caixa e estica o prazo de retorno dos investimentos. A Serasa Experian registrou 9,1 milhões de empresas com dívidas em atraso em junho de 2026, um recorde histórico liderado por micro e pequenos negócios. Nesse contexto, refinanciar passivos e ajustar o capital de giro deixaram de ser tarefas pontuais para se tornarem uma luta diária de sobrevivência.

Educação continuada: o filtro real
A Ancord fiscaliza o ritmo de aprendizado dos seus membros. Entre setembro de 2025 e setembro de 2026, a média de profissionais que atendem às exigências do Programa de Educação Continuada (PEC) ficou em 82,6%. O programa, que completa cinco anos em 2026, já oferece 709 cursos, somando mais de 6 mil horas de conteúdo e 4 mil créditos gratuitos.
Mesmo assim, quase 18% dos assessores permanecem fora do ciclo de atualização. Num mercado onde resoluções do Banco Central e novas estruturas de renda fixa surgem a cada semana, o atraso técnico é fatal. Não é apenas uma questão de conformidade, é uma armadilha operacional. O investidor percebe rapidamente a lacuna de conhecimento, e a confiança, uma vez abalada, raramente se recupera.

O cenário para o investidor
Com mais de 26 mil assessores disputando espaço, a oferta de serviços se expandiu, mas a qualidade final depende de quem está do outro lado da mesa. A XP Investimentos, por exemplo, segmentou as fabricantes de bens de capital em dois grupos distintos: as que faturam em moeda forte, como WEG e Embraer, e as dependentes da demanda doméstica, que segue fraca.
A WEG negocia a cerca de 24 vezes o lucro estimado para 2027, próximo ao piso da sua faixa histórica, enquanto a Embraer conta com a proteção de uma carteira de pedidos já contratada. A Tupy possui 60% da receita fora do Brasil. Essas nuances exigem uma análise precisa, longe de adivinhações. Trata-se de leitura de cenário, gestão de risco e a habilidade de traduzir essas contas complexas para o cliente sem recorrer a jargões vazios.
O que esperar dos próximos meses
O Banco Central mantém o alerta de que os riscos para a inflação permanecem elevados. Quem atua em finanças precisa estar preparado tanto para a persistência do crédito caro quanto para uma eventual queda gradual dos juros. A análise de cenários e a gestão de risco deixaram de ser privilégios de especialistas para se tornarem requisitos básicos de qualquer profissional que deseje proteger o patrimônio do cliente.
Mecanismos de mercado seguem ativos: a Embraer aprovou o desdobramento de seus ADSs na Bolsa de Nova York para ampliar liquidez e alinhar a proporção acionária, enquanto a CSN fechou acordo de exclusividade com a Huaxin para a alienação da CSN Cimentos. O mercado é dinâmico, mas reservado a quem domina a técnica. Os 2.635 novos assessores terão que provar sua competência rapidamente, pois o investidor não paga para aprender no processo, mas para ter segurança técnica.
Perguntas frequentes

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