Depois de meses de holofotes sobre a Selic e as criptomoedas, o câmbio voltou ao centro das atenções. Com o dólar rondando R$ 5,14, entenda as forças que sustentam o real e os riscos que podem empurrar a moeda americana para cima até dezembro.
Depois de meses em que os holofotes ficaram voltados para a Selic e para o avanço das criptomoedas, o câmbio voltou ao centro das atenções no Brasil. O dólar abriu setembro rondando os R$ 5,14 e o mercado passou a discutir, com renovada intensidade, até onde a moeda americana pode ir nos próximos meses e o que, de fato, tem sustentado o real diante de tantas incertezas.
O dólar em setembro
No início do mês, a moeda americana recuou levemente e rondava a casa dos R$ 5,14, mas os analistas alertam que a calmaria pode ser passageira. A faixa considerada mais provável para setembro fica entre R$ 5,15 e R$ 5,20, com um ambiente de maior volatilidade previsto para as semanas seguintes, à medida que novos dados econômicos e decisões de política monetária forem sendo digeridos pelo mercado.
O carry trade que sustenta o real

Boa parte da força do real neste ano tem um nome técnico, o carry trade. Com a Selic ainda em patamar elevado, o Brasil se tornou um dos destinos mais atraentes do mundo para o investidor estrangeiro que busca juros altos, o que faz entrar dólares no país e ajuda a segurar a cotação da moeda americana por aqui, funcionando como uma espécie de amortecedor natural do câmbio.
Na prática, o chamado diferencial de juros funciona como um imã poderoso. Mesmo com os cortes já em curso, uma taxa básica ao redor de 14% ao ano continua sendo generosa para os padrões internacionais, e preserva o atrativo da renda fixa brasileira frente a economias onde os juros são bem mais baixos, sustentando o fluxo de capital que fortalece o real no dia a dia.
O risco de cortar os juros rápido demais
Esse suporte, porém, não é eterno. O Copom vem sinalizando novas quedas da Selic, com o mercado projetando a taxa recuando na direção de 13,75% e podendo encerrar o ano perto de 12,25%. O problema aparece se os juros caírem depressa demais sem uma melhora consistente das contas públicas, algo que reduziria o encanto do real aos olhos de quem investe de fora.
Nesse cenário, o investidor estrangeiro tende a exigir mais para permanecer no país, e parte do dinheiro que hoje ajuda a segurar o dólar pode buscar outros destinos. É por isso que a agenda fiscal, com suas discussões sobre gastos, arrecadação e a trajetória da dívida, acabou virando peça central de qualquer previsão séria sobre o rumo do câmbio brasileiro nos próximos meses.
O Fed do outro lado da balança
A conta não depende só do Brasil. Do outro lado, está a política monetária dos Estados Unidos e a postura do Federal Reserve, o banco central americano. Se o Fed se mostrar mais duro e mantiver seus juros altos por mais tempo, enquanto o Banco Central brasileiro avança no ciclo de cortes, o diferencial que hoje favorece o real vai encolhendo aos poucos e perdendo força.
Esse jogo de gangorra entre os juros dos dois países é atualmente um dos principais vetores do câmbio. Quanto menor a distância entre a taxa brasileira e a americana, menos vantagem o investidor enxerga em manter recursos no Brasil, e maior tende a ser a pressão sobre o dólar, que pode voltar a subir mesmo sem grandes sustos vindos da economia doméstica.
Commodities e o fluxo de dólares
Há ainda um terceiro personagem nessa história, as commodities. Boa parte das forças que ajudaram o real ao longo de 2026 veio de um cenário favorável para os produtos que o Brasil exporta, dos quais dependem grandes fluxos de dólares que entram no país pela porta das exportações e reforçam a moeda nacional nos momentos de bonança.
O sinal de alerta é que essa contribuição começou a perder intensidade. Quando o petróleo e outras matérias-primas recuam, entra menos dólar pela via do comércio exterior, o que afeta ao mesmo tempo o fluxo cambial e as perspectivas de inflação, dois ingredientes que pesam diretamente na cotação que o brasileiro comum vê estampada no telão.
A eleição no radar
Sobre tudo isso paira o calendário político. A aproximação das eleições presidenciais adiciona uma camada extra de incerteza, porque o mercado tenta antecipar qual será o rumo da política econômica e das contas públicas a partir do próximo governo, e essa dúvida costuma se traduzir em oscilações mais fortes na cotação do dólar.
Não por acaso, analistas apontam que o período eleitoral historicamente costuma dar um impulso de alta à moeda americana. Somada às discussões fiscais e ao cenário geopolítico global, a disputa política completa a lista de fatores capazes de, a qualquer momento, voltar a pressionar o real ao longo dos próximos meses do ano.
Para onde vai o dólar até dezembro
Diante de tantas variáveis, as projeções para o fim de 2026 se espalham. Agentes de mercado ouvidos pelo Banco Central trabalham com o dólar encerrando o ano ao redor de R$ 5,20, enquanto instituições como o Inter apostam em algo próximo de R$ 5,15 e visões mais pessimistas chegam a falar em R$ 5,40, a depender de como cada peça desse quebra-cabeça vai se encaixar.
No fim das contas, o real segue equilibrado entre um forte atrativo de juros, que ainda puxa capital para o país, e uma lista de riscos que vão do ritmo dos cortes até o humor das urnas. Entender essa disputa de forças ajuda o brasileiro comum a enxergar, por trás de cada centavo no valor do dólar, muito mais do que um simples número piscando na tela.

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