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73 cânceres e um noivo no hospital HEALTH · PT

73 cânceres e um noivo no hospital

Julia Almeida Julia Almeida juliaalmeida.avalw.com · 1k reads Respect0 Save Share Read only
READS0live count PUBLISHED12 Oct2026 READING TIME4 min857 words LANGUAGEPortuguese
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Hilária Mireski, de Itaiópolis, enfrenta 73 cânceres de pele desde 1998. Conheça a história de amor que começou entre consultas médicas e terminou em altar.

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Setenta e três. O número é difícil de assimilar para quem nunca viveu o ciclo interminável de biópsias e cirurgias que Hilária Mireski, 60 anos, percorreu durante quase três décadas. Cada um desses diagnósticos representa uma lesão, uma intervenção, um medo renovado. E, no entanto, a história que ela carrega não termina na dor ou na perda. Termina num altar. No último sábado, dia 10 de outubro, Hilária casou com Adão Pereira, 49 anos, num casamento comunitário na Igreja Matriz de Itaiópolis, no Norte de Santa Catarina. O detalhe que torna essa união tão rara é o lugar onde os dois se encontraram: o Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, há cerca de sete anos.

Aos 60 anos, Hilária convive com a síndrome de Gorlin-Goltz, uma doença genética rara que aumenta drasticamente a predisposição ao desenvolvimento de tumores. O carcinoma basocelular, um tipo de câncer de pele, é o vilão principal nessa trajetória. A história começou em 1998, quando ela notou manchas e lesões pelo corpo. Na época, trabalhava como gari, atividade que exerceu por cerca de dez anos sob forte exposição ao sol, sem a proteção necessária. O que era apenas uma mancha virou, com o tempo, uma rotina de hospital que moldou sua vida e, ironicamente, seu destino romântico.

Um amor nascido na sala de espera

Adão Pereira não era paciente. Ele estava lá acompanhando o pai durante um tratamento. Foi nessa rotina de corredores e salas de espera que ele se aproximou de Hilária. Nos primeiros anos, o contato era casual, marcado pela empatia de quem via a luta diária dela. Com o passar do tempo, Adão passou a acompanhá-la nas idas ao hospital, especialmente nos dias em que as duas filhas de Hilária não podiam estar presentes. A relação cresceu no silêncio das salas de tratamento e na companhia silenciosa de quem entende o peso de cada exame.

Não foi um romance de contos de fadas, sem máscaras ou cenários românticos. Foi uma conexão forjada na realidade crua da doença. Adão tornou-se um pilar, alguém que dividia as filas, as esperas e os medos. Essa proximidade, construída ao longo de anos de companheirismo, levou o casal a oficializar a união. Para Hilária, que já lidou com tantas perdas, encontrar um apoio tão firme em meio à fragilidade do corpo foi, talvez, o maior presente que a vida lhe poderia dar.

Acompanhamento e carinho: o apoio de Adão ao longo dos anos de tratamento.
Acompanhamento e carinho: o apoio de Adão ao longo dos anos de tratamento.

O preço físico de uma doença rara

A síndrome de Gorlin-Goltz não é apenas uma estatística médica. É uma presença constante. A necessidade de acompanhamento contínuo significa que novas lesões podem surgir a qualquer momento. No caso de Hilária, o histórico é impressionante e doloroso: mais de 90 biópsias realizadas ao longo dos anos. Cada procedimento é uma tentativa de controlar o que a genética insiste em provocar. A doença não dá trégua, e o corpo de Hilária carrega as marcas dessa batalha longa.

Em 2019, a doença atingiu um ponto crítico. Durante o tratamento, Hilária perdeu um dos olhos e parte do nariz. Essas mudanças não foram apenas funcionais, mas também estéticas, trazendo novos desafios para a sua rotina e para a forma como o mundo a via. A aparência, que antes era apenas um detalhe, tornou-se o centro de muitos olhares, nem sempre gentis. Ainda assim, a perda não a paralisou. Ela seguiu lutando, seguindo o tratamento, seguindo a vida.

Hilária convive com as marcas da doença, mas carrega sua história com dignidade.
Hilária convive com as marcas da doença, mas carrega sua história com dignidade.

O preconceito que tenta calar

Além da dor física, Hilária teve que enfrentar a dor social. Em relatos que ganharam repercussão nas redes sociais, ela contou que já foi chamada de monstro, de ET e de caveira. Comentários ofensivos sobre sua aparência tentaram apagar quem ela é, reduzindo-a às suas cicatrizes e às suas perdas. Para uma mulher que já enfrentou 73 cânceres, esse tipo de crueldade verbal é uma camada extra de sofrimento que a sociedade impõe a quem não se encaixa nos padrões de beleza.

Esses episódios de preconceito mostram que a batalha contra a doença não acontece apenas dentro do consultório. Ela se estende para as ruas, para as redes sociais e para o olhar do outro. Hilária, no entanto, não se deixou definir por esses rótulos. Sua história de resistência e, agora, de amor, é uma resposta viva a quem tenta diminuir sua dignidade. O casamento com Adão é uma afirmação de que a beleza não se mede pela pele intacta, mas pela força de quem a habita.

O casamento comunitário em Itaiópolis marcou o novo capítulo da vida do casal.
O casamento comunitário em Itaiópolis marcou o novo capítulo da vida do casal.

A esperança como rotina

A jornada de Hilária Mireski é um lembrete poderoso de que a saúde vai muito além da ausência de doença. É sobre resiliência, sobre adaptação, sobre encontrar sentido até nas circunstâncias mais adversas. O encontro com Adão, no meio da rotina de exames, prova que a vida encontra caminhos inesperados para nos surpreender. O que era um lugar de medo tornou-se o cenário de um dos maiores momentos de alegria da vida dela.

Enquanto a medicina continua lutando para controlar a síndrome de Gorlin-Goltz, Hilária segue sua própria batalha diária. Cada dia é uma vitória, cada visita ao hospital é um capítulo que ela escreve com coragem. E agora, com Adão ao seu lado, ela não está mais sozinha nessa travessia. A história de Hilária e Adão não é apenas sobre amor. É sobre a capacidade humana de florescer, mesmo quando o solo parece ser apenas pedra e dor.

Perguntas frequentes

Quantos cânceres Hilária Mireski diagnosticou ao longo de sua vida?

Hilária Mireski recebeu 73 diagnósticos de câncer durante quase três décadas de tratamento. Esses casos estão relacionados à síndrome de Gorlin-Goltz, uma condição genética rara que aumenta a predisposição ao desenvolvimento de tumores, sendo o carcinoma basocelular o principal tipo identificado.

Onde e quando aconteceu o casamento de Hilária Mireski e Adão Pereira?

O casal se casou no dia 10 de outubro, em um casamento comunitário realizado na Igreja Matriz de Itaiópolis, no Norte de Santa Catarina. A união oficializa a relação que começou há cerca de sete anos no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba.

Como Adão Pereira conheceu Hilária Mireski?

Adão conheceu Hilária no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, enquanto acompanhava o pai durante um tratamento. Ele não era paciente, mas passou a frequentar o local e a acompanhá-la nas idas ao hospital, especialmente nos dias em que as filhas de Hilária não podiam estar presentes.

Quais sequelas físicas Hilária Mireski sofreu em 2019?

Em 2019, durante o tratamento da síndrome de Gorlin-Goltz, Hilária perdeu um dos olhos e parte do nariz. Essas perdas trouxeram desafios funcionais e estéticos, mas ela continuou seguindo o tratamento e sua rotina diária.

Qual foi o trabalho de Hilária antes do início dos diagnósticos de câncer?

Hilária trabalhou como gari por cerca de dez anos antes de notar as primeiras manchas e lesões em 1998. A atividade envolvia forte exposição ao sol sem a proteção necessária, o que contribuiu para o surgimento das lesões que evoluíram para o carcinoma basocelular.

Quais termos ofensivos Hilária Mireski relatou ter recebido?

Hilária relatou em redes sociais que já foi chamada de monstro, ET e caveira. Esses comentários ofensivos sobre sua aparência representam uma camada extra de sofrimento social além da dor física causada pela doença.

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Julia Almeida 2026-10-12 · 4 min read · 0 reads
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