Um extenso estudo publicado na revista The Lancet sugere que cerca de sete mil passos diários, e não os famosos dez mil, bastam para colher a maior parte dos benefícios da caminhada, com quedas notáveis no risco de várias doenças.
Durante anos, quem quisesse cuidar da sua saúde ouviu sempre o mesmo conselho quase mágico: dar dez mil passos por dia. Este número tornou-se de tal forma popular que passou a figurar em relógios inteligentes e aplicações de telemóvel um pouco por todo o lado. No entanto, uma investigação recente veio pôr seriamente em causa esta ideia tão enraizada.
O mito dos dez mil passos
Antes de mais, convém perceber até que ponto esta meta se instalou no nosso imaginário coletivo. Ao longo do tempo, os dez mil passos diários transformaram-se numa espécie de objetivo universal, repetido por treinadores, aplicações e conversas de café, quase como se fosse uma verdade científica indiscutível e válida para toda a gente.
É precisamente esta certeza tão difundida que a nova investigação vem agora abalar. Segundo os seus autores, não é de todo necessário atingir os famosos dez mil passos para colher a maior parte dos benefícios que a caminhada tem para oferecer à nossa saúde, o que representa uma notícia bastante animadora para muitos.
O que diz o novo estudo
Mas de onde vêm afinal estas conclusões tão marcantes? De acordo com a informação disponível, o estudo foi publicado na conceituada revista científica The Lancet e resultou de um extenso trabalho de análise conduzido por uma equipa de investigadores australianos e europeus, que reuniu e cruzou dados de dezenas de estudos anteriores.
A própria dimensão desta análise é, aliás, um dos seus grandes pontos fortes. Segundo os investigadores, foram examinados os resultados de 57 estudos publicados entre 2014 e o início de 2025, abrangendo áreas tão variadas como as doenças cardíacas, o cancro, a diabetes, a saúde mental e, de forma geral, a longevidade das pessoas.
Sete mil passos, grandes ganhos

E qual é, então, o número que a ciência agora sugere? De acordo com o estudo, a marca dos sete mil passos diários parece ser mais do que suficiente para obter ganhos consideráveis. Os investigadores notaram reduções significativas de risco sobretudo quando as pessoas passavam de cerca de dois mil para sete mil passos por dia.
Curiosamente, os benefícios não desaparecem a partir desse ponto, mas passam a crescer de forma bem mais lenta. Segundo a investigação, atingir aquela marca está associado a um risco mais baixo de problemas tão diversos como a demência, as doenças cardíacas, a depressão, a diabetes do tipo 2 e ainda vários tipos de cancro.
Números que impressionam
Quando se olha para os valores concretos, a mensagem torna-se ainda mais clara e convincente. De acordo com os dados, as reduções de risco variaram entre cerca de 6 por cento no caso do cancro e uns notáveis 38 por cento no que diz respeito à demência, o que evidencia bem o enorme peso de um hábito tão simples.
Os números ligados ao coração e à mortalidade são talvez os mais impressionantes de todos. Segundo o estudo, quem dava sete mil passos por dia apresentava um risco 25 por cento menor de doença cardiovascular e, ainda mais notável, um risco 47 por cento inferior de morte por todas as causas, quando comparado com quem dava apenas dois mil.
Uma meta mais alcançável
Para além dos números, talvez o maior mérito deste estudo esteja mesmo na mensagem que transmite. Ao baixar a fasquia dos dez mil para os sete mil passos, a meta torna-se subitamente muito mais realista e bem menos intimidante para todas aquelas pessoas que sentiam ser praticamente impossível cumprir o objetivo anterior.
Esta mudança de perspetiva pode fazer toda a diferença na prática do dia a dia. Em vez de desistirem por não conseguirem chegar aos dez mil, muitas pessoas poderão sentir-se motivadas a caminhar um pouco mais todos os dias, sabendo que cada passo conta e que os progressos podem ser construídos de forma gradual e sustentável.
O importante é mexer-se
Ainda assim, os especialistas recordam que não existe uma receita única que sirva a toda a gente. Fatores como a idade, a condição física e o estado de saúde de cada pessoa continuam a ser determinantes, pelo que aconselham sempre bom senso e, em caso de dúvida, o acompanhamento de um profissional de saúde.
No fundo, a grande lição que fica é reconfortante na sua enorme simplicidade: mover o corpo compensa quase sempre. Quer o objetivo sejam sete mil ou dez mil passos, o mais importante parece ser mesmo levantar-se, calçar os sapatos e caminhar, transformando um gesto tão banal numa das ferramentas mais poderosas ao alcance de qualquer um.
