Da bica ao balcão ao galão da manhã, o café é quase um ritual nacional em Portugal. E a ciência mais recente traz boas notícias: o consumo moderado de café preto associa-se a menor risco de mortalidade, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular. O segredo está na quantidade e em beber com pouco açúcar
Em Portugal, o café é quase um ritual nacional. A bica tomada de pé ao balcão, o galão da manhã ou o cafezinho depois do almoço fazem parte do dia a dia de milhões de pessoas. Mas para além do prazer e do hábito, a ciência tem vindo a mostrar que esta bebida pode ter benefícios reais para a saúde.
Mais do que um ritual
Poucas bebidas estão tão enraizadas na cultura portuguesa como o café. É o pretexto para uma pausa, para uma conversa ou para recuperar energia a meio da tarde. Da pastelaria de bairro ao escritório, a chávena de café acompanha os momentos mais banais e também os mais importantes do quotidiano.
Durante muito tempo, porém, o café carregou uma reputação ambígua. Era visto com alguma desconfiança, associado ao nervosismo, à insónia e a eventuais riscos para o coração. Felizmente, a investigação mais recente tem vindo a pintar um quadro bastante mais positivo e tranquilizador para quem gosta desta bebida.
O que diz a ciência
Vários estudos de grande dimensão apontam no mesmo sentido. As análises de dados de milhares de pessoas encontram uma associação inversa entre o consumo de café e o risco de mortalidade, de diabetes tipo 2, de doenças cardiovasculares e até de alguns tipos de cancro, em vez de um aumento desse risco.
Os números ajudam a perceber a dimensão do efeito. Segundo a investigação, quem bebe entre uma e três chávenas de café preto por dia, com pouco ou nenhum açúcar, apresenta um risco de mortalidade global cerca de 14 por cento mais baixo, e menor risco de morte por doença cardiovascular, do que quem não bebe café.
A quantidade certa

Ainda assim, mais não é necessariamente melhor. A chamada dose ideal situa-se, para a maioria dos adultos, entre três a cinco chávenas por dia. Curiosamente, os estudos sugerem que ultrapassar as três chávenas não traz uma redução adicional significativa do risco, pelo que exagerar não compensa em nada.
Também é importante lembrar que cada pessoa reage de forma diferente à cafeína. Há quem tolere várias chávenas sem problemas e quem, com uma só ao fim do dia, veja o sono perturbado. Ouvir o próprio corpo continua a ser o melhor guia para encontrar o equilíbrio pessoal mais adequado a cada um.
O segredo está na chávena
Há, no entanto, um pormenor decisivo. Grande parte dos benefícios pode desaparecer se enchermos o café de açúcar e de natas ou outras gorduras. O ideal, segundo a ciência, é bebê-lo simples ou com poucos acrescentos, para aproveitar aquilo que a bebida tem realmente de bom para o organismo.
É que o mérito parece estar no próprio café, e não nas versões açucaradas e cremosas que hoje enchem as montras. Compostos naturais chamados polifenóis, presentes no café preto, estão entre os principais candidatos a explicar a menor probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 associada à bebida.
Não é para todos
Apesar de tudo, o café não é indicado para toda a gente na mesma medida. Pessoas muito sensíveis à cafeína, com problemas de sono, com certas condições cardíacas ou grávidas devem ter mais cuidado e, em caso de dúvida, moderar o consumo ou falar com um profissional de saúde de confiança.
O prazer que também faz bem
Para um país apaixonado por café, a conclusão é francamente agradável. Um dos pequenos prazeres do dia, quando tomado com moderação e sem excesso de açúcar, parece alinhar-se com aquilo que é bom para a saúde, em vez de estar em conflito com isso, como durante tanto tempo se receou.
Convém, ainda assim, manter os pés na terra. A maioria destas conclusões vem de estudos observacionais, que mostram associações e não provas definitivas de causa e efeito. O café não é um medicamento, nem um motivo para começar a bebê-lo quem não gosta ou não o tolera bem no seu dia a dia.
No fim, a mensagem é simples e reconfortante. Aquela bica ao balcão ou o café tranquilo em casa podem ser mais do que um momento de prazer, desde que a medida seja sensata. Para os portugueses, é talvez a confirmação de que um pequeno hábito de sempre também pode jogar a favor da saúde.
