Portugal surge repetidamente entre os países europeus com menos atividade física. Um estudo recente e as recomendações da OMS ajudam a perceber a dimensão do problema e os caminhos para o resolver.
Num país conhecido pelo sol, pela costa extensa e por uma certa tradição de vida ao ar livre, os números sobre atividade física acabam por surpreender pela negativa. Portugal aparece, ano após ano, entre os países europeus onde as pessoas menos se mexem, um paradoxo que bem merece a nossa atenção.
O tema regressa agora à conversa, impulsionado por novos estudos e pela persistência de um problema que as autoridades de saúde há muito acompanham de perto. Perceber a real dimensão do sedentarismo, e sobretudo o que fazer em relação a ele, tornou-se claramente uma questão de saúde pública.
O que dizem as recomendações

Antes de olhar para os números, convém recordar aquilo que os especialistas efetivamente aconselham. Segundo as orientações da Organização Mundial da Saúde, publicadas em 2020, um adulto deve praticar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana, ou em alternativa cerca de 75 minutos de atividade mais intensa.
Estes valores podem parecer exigentes à primeira vista, mas na prática traduzem-se em gestos simples e acessíveis a quase toda a gente. Uma caminhada diária, subir as escadas em vez de usar o elevador ou pedalar até ao trabalho são exemplos de como o movimento se pode integrar na rotina sem grandes ginásios nem equipamentos caros.
Portugal entre os menos ativos
É precisamente neste ponto que Portugal fica para trás em relação aos parceiros europeus. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, o país surge repetidamente como um dos europeus com maior proporção de inatividade física, num contraste evidente com os países nórdicos, onde a prática regular de exercício é bastante mais comum.
O resultado é um retrato preocupante de uma população que, na sua maioria, não atinge os níveis mínimos recomendados pelos especialistas. Este padrão não é propriamente novo, mas a sua persistência ao longo dos anos mostra que as mudanças de hábitos são lentas e exigem um esforço continuado, tanto individual como coletivo.
Um risco silencioso para a saúde
As consequências de tanto tempo passado sentado vão muito para além da simples forma física. Um estudo publicado em julho de 2026 na Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional recordou que os baixos níveis de atividade e o comportamento sedentário são fatores de risco significativos, sobretudo a nível cardiovascular e metabólico.
O sedentarismo está, assim, associado a um conjunto de problemas que se vão instalando de forma discreta ao longo do tempo. Falar de atividade física deixou por isso de ser apenas uma questão de estética ou de desempenho, para passar a ser encarado como uma verdadeira ferramenta de prevenção da doença no dia a dia.
Quando o trabalho atrapalha
O mesmo estudo chamou ainda a atenção para um grupo bastante particular, o dos próprios profissionais de saúde. Segundo os autores, as exigências laborais destes profissionais podem perturbar fortemente a adoção de hábitos saudáveis, numa espécie de ironia para quem lida diariamente e de perto com a doença dos outros.
O exemplo é revelador de um problema bem mais amplo do que parece. Horários longos, turnos rotativos e cansaço acumulado dificultam a prática de exercício em muitas profissões, o que sugere que a solução não depende apenas da vontade individual, mas também da forma como o trabalho e a vida quotidiana estão organizados.
A resposta das políticas públicas
Consciente da dimensão do problema, Portugal tem procurado responder através de iniciativas dedicadas ao tema. Uma das mais relevantes é o Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física, que procura incentivar hábitos mais ativos junto da população e integrar o movimento nas várias esferas da vida quotidiana das pessoas.
Este tipo de programa reconhece, no fundo, que combater o sedentarismo é uma tarefa que ultrapassa em muito o consultório médico. Passa por cidades mais amigas do peão, por escolas que valorizam a atividade física desde cedo e por locais de trabalho que facilitem, em vez de dificultarem, o movimento ao longo do dia.
Pequenos passos, grandes efeitos
Para o cidadão comum, a mensagem dos especialistas é sobretudo encorajadora e nada alarmista. Não é preciso tornar-se um atleta para colher benefícios reais, e qualquer aumento de atividade, por mais modesto que pareça, representa desde logo um ganho face ao imobilismo total. O verdadeiramente importante é começar e depois manter.
O desafio de Portugal não está, portanto, na falta de sol ou de espaço para se mexer, mas sim em transformar a boa intenção em hábito duradouro. Se os números atuais funcionam como um alerta, as recomendações e os programas já existentes mostram que o caminho é conhecido. Falta, acima de tudo, dar mesmo o primeiro passo.
Bom olhar a fundo sobre Portugal.
Bem dito.
Verdade.
