A 79.ª edição do Festival de Locarno levou dois filmes com assinatura portuguesa ao certame suíço. Basil da Cunha disputou o Leopardo de Ouro com O Jacaré, enquanto Edgar Pêra marcou presença fora de competição.
O cinema português voltou a marcar presença num dos mais prestigiados festivais europeus. Na 79.ª edição do Festival de Locarno, que decorreu de 5 a 15 de agosto na Suíça, dois filmes com assinatura lusa chegaram ao certame do sul dos Alpes, com destaque para O Jacaré, de Basil da Cunha, que disputou o principal prémio do evento, o Leopardo de Ouro.
A edição deste ano confirmou a dimensão do festival suíço. Ao todo foram exibidos 233 filmes, entre os quais 103 estreias mundiais, escolhidos a partir de um número recorde de 7.759 candidaturas. Na secção principal, o Concorso Internazionale, 17 longas-metragens competiram pelo Leopardo de Ouro, sob a presidência do júri do realizador belga Fabrice Du Welz.
A abertura, na emblemática Piazza Grande, teve como protagonista a atriz e realizadora italiana Isabella Rossellini, distinguida com o Prémio de Excelência 2026. A sessão inaugural exibiu ao ar livre o filme The Green Eyes, de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, perante os milhares de espectadores que enchem todos os anos a maior praça da cidade para as projeções noturnas.
O Jacaré e o fecho da trilogia da Reboleira

No centro da presença portuguesa esteve O Jacaré, uma coprodução entre a Suíça e Portugal realizada por Basil da Cunha. O cineasta luso-suíço integrou a competição principal do festival, um espaço reservado a um número restrito de obras e disputado por realizadores de todo o mundo, o que confirma o reconhecimento internacional do seu percurso.
O filme encerra uma trilogia dedicada ao bairro da Reboleira, na periferia de Lisboa, que o realizador foi construindo ao longo dos anos. A série teve início com O Fim do Mundo, apresentado em 2019, e prosseguiu com Manga d'Terra, de 2023, num retrato continuado das comunidades e das margens urbanas que atravessam toda a sua obra.
A ligação de Basil da Cunha a Locarno não é nova. O realizador tem um historial de passagens pelo festival suíço, que ao longo das últimas décadas se afirmou como uma montra atenta ao cinema de autor e às produções independentes, categorias em que o seu trabalho se enquadra. A presença na competição principal representa, por isso, mais um passo nessa relação de confiança.
Edgar Pêra fora de competição
A representação lusa não se limitou à competição. O realizador Edgar Pêra, uma das vozes mais experimentais do cinema português, marcou presença na secção fora de competição com Guerrilha no Asfalto. A escolha reforçou a diversidade da presença nacional, cruzando uma obra de forte pendor autoral com a corrida ao prémio maior do certame.
A par dos dois nomes portugueses, o festival contou ainda com outras produções de expressão lusófona, um sinal da crescente circulação do cinema falado em português nos grandes certames internacionais. Esta presença alargada ajuda a colocar autores e histórias de língua portuguesa no radar de programadores, distribuidores e da crítica especializada.
O palmarés e o desfecho para Portugal
O grande vencedor da edição foi o filme romeno You Don't Belong Here, realizado por Florin Serban, que conquistou o Leopardo de Ouro. A distinção máxima escapou assim a O Jacaré, que integrou a competição mas não figurou entre os premiados no encerramento, disputado por um conjunto particularmente exigente de obras vindas de vários continentes.
O palmarés distribuiu-se por vários nomes de peso. O Prémio Especial do Júri foi para The Riverbank, de Matheus Farias e Enock Carvalho, enquanto o coreano Hong Sang-soo foi distinguido na melhor realização por Nowhere to Lay My Eyes. Nas interpretações, os prémios foram entregues a Monica Bellucci e a Kim Min-hee, dois nomes reconhecidos internacionalmente.
Apesar de não ter arrecadado um troféu, a simples inclusão de um filme português na competição principal de Locarno tem um peso próprio. Estar entre as dezassete obras escolhidas para disputar o Leopardo de Ouro coloca o cinema nacional lado a lado com algumas das produções de autor mais aguardadas do ano e reforça a sua visibilidade junto do público e da indústria.
A passagem por Locarno costuma abrir caminho para a carreira dos filmes em festivais e salas. Para O Jacaré, o desafio seguinte será chegar aos cinemas portugueses e a novos certames, levando o retrato da Reboleira a públicos mais vastos. Para o cinema português, fica a confirmação de que continua a encontrar espaço nas montras europeias mais exigentes.
Bom contexto sobre Festival de Locarno.
Aprendi bastante sobre Festival de Locarno aqui.

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