De uma gruta nas Dolomitas ao fundo do mar de Lanzarote, a ciência decifra o passado através de vestígios físicos preservados pela natureza.
A 2.800 metros de altitude, na encosta de Col Toronn, em Val Badia, o guia Kurt Walde parou a sua caminhada técnica. O que viu no interior da rocha não eram fósseis de dinossauros, mas ossadas quase completas de ursos pré-históricos. Estavam preservadas num microclima estável, dentro de uma galeria de 170 metros, onde o sedimento seco impediu a decomposição durante milénios. Centenas de ossos fossilizados aguardavam, intocados, a descoberta de um montanhista.
A reação das autoridades foi imediata. As equipas de paleontologia da província de Bolzano isolaram a gruta para garantir que a escavação fosse rigorosa. A singularidade do local não reside apenas na altitude extrema para este tipo de fauna, mas na forma como a estrutura geológica protegeu os materiais biológicos das intempéries alpinas. Estes dados são vitais para entender a tolerância climática dos grandes mamíferos que dominaram a Europa durante o Pleistoceno.
O arquivo submerso de Lanzarote
Enquanto as Dolomitas guardam ossos, o fundo do mar de Lanzarote preserva a memória de um vulcão que nasceu em terra firme. A União Internacional das Ciências Geológicas (IUGS) reconheceu o tubo vulcânico La Corona–La Atlántida como patrimônio geológico mundial a 6 de novembro. O sistema, com cerca de dez quilómetros, inclui a Cueva de los Verdes e os Jameos del Agua, mas o segredo real está na parte submersa.
O Túnel Atlântida, com quase dois quilómetros de comprimento e até 64 metros de profundidade, é o tubo de lava subaquático mais longo conhecido. Formou-se entre 26.000 e 21.000 anos atrás, durante o máximo glacial, quando o nível do mar estava 120 metros abaixo do atual. O que hoje está submerso formou-se ao ar livre. A subida progressiva do mar inundou as secções inferiores, criando um arquivo geológico único.

Lendo a história nas pedras
A singularidade deste complexo vai além das dimensões. No interior, sedimentos e depósitos minerais preservam a transformação de um conduto vulcânico ao longo do tempo. Javier Lario Gómez, professor de Geodinâmica Externa da UNED, explica que os carbonatos e sulfatos encontrados no túnel registam diferentes estágios da sua evolução.
A análise destes materiais permite reconstruir como este ambiente mudou e como o nível do mar subiu nos últimos 26.000 anos. É uma leitura direta da história ambiental, gravada nas paredes da cavidade. A proposta para a inclusão na lista da IUGS reuniu mais de um século de estudos, com novos resultados coordenados por Lario na última década, focados especialmente na secção submarina.

A geologia como herança científica
Este reconhecimento não é isolado. Na mesma cerimónia, em Monchique, Portugal, a Roménia apresentou a sua primeira inclusão na lista, o depósito hidrotermal de Baia Sprie. Situado no condado de Maramureș, este sítio foi selecionado pela sua diversidade mineralógica excecional, com cerca de 100 minerais identificados, seis dos quais descobertos pela primeira vez no mundo.
É considerado o mais antigo depósito hidrotermal documentado na Europa, presente na literatura científica desde 1774. Entre essa data e 2025, foi objeto de 107 artigos científicos, tornando-o um dos depósitos mais estudados do mundo. A área contém uma das veias hidrotermais mais longas da Europa, com mais de cinco quilómetros, e inclui o Lago Azul, uma estrutura artificial formada pelo colapso de uma galeria de mina antiga.

O método dos vestígios
Tanto nos Alpes como nas Canárias, a ciência recorre a vestígios físicos para preencher lacunas que a tecnologia moderna não pode cobrir. Antes dos sismógrafos, os cientistas usavam cartas, registos e documentos para reconstruir eventos sísmicos antigos. Hoje, essa abordagem estende-se à paleontologia e à geologia, onde a preservação natural é o principal arquivo.
O caso dos ursos nas Dolomitas ilustra como a geografia e o clima podem criar condições únicas de conservação. A adaptação biológica desses animais, que acumulavam camadas densas de gordura para hibernar, levou muitos a perecer durante o sono invernal prolongado por esgotamento de energia. As suas ossadas, agora encontradas, fornecem dados sobre essa vulnerabilidade em altitudes extremas.
O futuro da investigação
As autoridades de Bolzano continuam a escavar a gruta, com equipas de paleontologia a trabalhar em condições rigorosas. Cada osso é catalogado, analisado e devolvido ao seu contexto estratigráfico. O objetivo é entender melhor a fauna do Pleistoceno italiano e as condições climáticas que permitiram a sobrevivência desses grandes herbívoros.
Em Lanzarote, a pesquisa continua a focar-se na secção submarina, onde os sedimentos ainda guardam respostas sobre a história do nível do mar. A combinação de estudos de formas de terreno, sedimentos e rochas permite reconstruir a sequência de eventos com uma precisão rara. A geologia, nestes casos, não é apenas uma ciência do presente, mas uma ferramenta para ler o passado com clareza.
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