O cogumelo que vemos no outono é só a ponta de um reino gigantesco. Cerca de noventa por cento das plantas vivem em aliança com fungos, o micélio percorre o solo aos metros por grama, e existem milhões de espécies quase todas por descrever. Uma viagem à rede viva que recicla a vida e guarda o carbon
Com a chegada do outono e das primeiras chuvas, as florestas de Portugal enchem se de cogumelos. Vermelhos, castanhos ou brancos, surgem por entre o musgo e as folhas caídas. Mas o que vemos é apenas uma pequena parte de um dos reinos mais fascinantes e menos conhecidos de toda a natureza, o reino dos fungos.
A ponta do icebergue
O cogumelo que colhemos ou fotografamos é apenas o corpo frutífero, a estrutura reprodutora que liberta os esporos. O verdadeiro organismo vive escondido debaixo dos nossos pés, sob a forma de uma vasta teia de finíssimos filamentos que se estende silenciosamente pelo solo da floresta.
Essa teia chama se micélio e é composta por células tubulares chamadas hifas. A sua dimensão é difícil de imaginar, pois estima se que um único grama de solo possa conter até noventa metros de micélio, um autêntico labirinto vivo que percorre a terra em todas as direções possíveis.
Uma aliança com quase todas as plantas

Mas o papel dos fungos não se fica pelo solo que habitam. Cerca de noventa por cento das plantas terrestres formam uma aliança íntima com fungos, uma parceria chamada micorriza, em que as raízes das plantas e os filamentos dos fungos se entrelaçam num abraço subterrâneo e mutuamente vantajoso.
Trata se de uma das trocas mais antigas do planeta. Os fungos recolhem água e minerais como o fósforo e o azoto, difíceis de alcançar, e entregam nos à planta. Em troca, recebem os açúcares que a planta produz através da fotossíntese, alimentando se assim da energia captada diretamente do Sol.
Um reino à parte, quase desconhecido
Ao contrário do que muitos pensam, os fungos não são plantas nem animais, mas um reino próprio da vida, com regras e histórias evolutivas únicas. E é um reino imenso, pois os cientistas estimam que existam entre dois e quatro milhões de espécies diferentes de fungos em todo o mundo.
O mais surpreendente é o quanto ainda desconhecemos. Das milhões de espécies que se acredita existirem, apenas cerca de cento e quarenta e oito mil foram formalmente descritas pela ciência, ou seja, menos de dez por cento. A esmagadora maioria dos fungos permanece, ainda hoje, um completo mistério.
Os recicladores da natureza
Os fungos são também os grandes recicladores dos ecossistemas. São eles que decompõem a madeira morta, as folhas caídas e a matéria orgânica, transformando o que morreu em nutrientes que voltam ao solo e alimentam novas gerações de plantas e de árvores por toda a floresta.
Sem este trabalho silencioso, as florestas ficariam soterradas sob camadas intermináveis de troncos e folhas que nunca apodreceriam. Ao fechar o ciclo da vida e da morte, os fungos garantem que a energia e os nutrientes continuam a circular, mantendo todo o ecossistema vivo e saudável.
A rede sob a floresta
Nos últimos anos, os cientistas começaram a cartografar esta rede oculta à escala do planeta. Uma investigação recente, ligada à organização SPUN, dedicada à proteção das redes subterrâneas, revelou que os filamentos fúngicos do solo guardam cerca de trezentos milhões de toneladas de carbono, um número que sublinha o seu peso no clima.
Para desenhar estes primeiros grandes mapas, os investigadores recorreram a algoritmos de aprendizagem automática, analisando milhares de milhões de sequências de ADN de fungos recolhidas em cerca de vinte e cinco mil amostras de solo em mais de cento e trinta países diferentes do mundo inteiro.
Guardiões invisíveis do clima
Esta descoberta trouxe também um alerta. Apesar de serem peças fundamentais para a saúde do solo e para o combate às alterações climáticas, as redes de fungos estão ameaçadas pela agricultura intensiva, pela destruição dos solos e pela poluição, e grande parte delas encontra se hoje fora de qualquer área protegida.
Por isso, da próxima vez que encontrar um cogumelo numa floresta portuguesa, vale a pena lembrar que ele é apenas a ponta visível de um mundo imenso e antigo. Sob a terra, uma rede viva e silenciosa continua a sustentar as árvores, a reciclar a vida e a guardar o carbono de todo o planeta.

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