As populacoes de borboletas dos prados europeus cairam mais de metade desde 1991, revela o indicador oficial da Uniao Europeia. Um sinal de alerta sobre a perda de biodiversidade, as suas causas e o que ainda e possivel fazer para travar o declinio destes pequenos e preciosos indicadores da saude da
Ha algo de profundamente inquietante num prado de verao sem borboletas. Aquele bailado de asas coloridas sobre as flores silvestres, que durante geracoes foi sinonimo de campo e de natureza viva, esta a tornar-se cada vez mais raro em grande parte da Europa. Por tras desta ausencia esconde-se uma tendencia preocupante que os cientistas seguem ha decadas e que, longe de ser um simples detalhe, funciona como um poderoso aviso sobre o estado geral do mundo natural.
Um declinio alarmante
Os numeros nao deixam margem para duvidas quanto a gravidade da situacao. Segundo o indicador europeu que acompanha as borboletas dos prados, a abundancia media destas especies caiu mais de cinquenta por cento desde o inicio da decada de noventa. Por outras palavras, em pouco mais de trinta anos desapareceu praticamente metade destes insetos dos campos do continente. Trata-se de uma perda enorme, silenciosa e em grande medida ignorada pela maioria das pessoas.
As borboletas como sentinelas

Ha uma boa razao para os investigadores prestarem tanta atencao a estes insetos em particular. As borboletas sao consideradas indicadores biologicos ideais, pois reagem depressa a qualquer alteracao do ambiente e vivem numa grande variedade de habitats. Sao faceis de observar, estao bem documentadas e, ao contrario de muitos outros insetos, sao apreciadas pelo publico. Aquilo que acontece com elas reflete, em boa parte, o que se passa com incontaveis outras especies menos visiveis.
As causas do desaparecimento
As razoes por tras deste colapso sao varias e combinam-se entre si de forma preocupante. Em grande parte da Europa ocidental, o principal responsavel e a perda de habitat provocada pela intensificacao da agricultura e pelo excesso de azoto que se acumula mesmo em areas protegidas. A destruicao dos prados naturais, ricos em flores, retira as borboletas tanto o alimento como os locais onde depositam os seus ovos, empurrando muitas especies para um declinio acentuado.
O paradoxo do abandono
Curiosamente, nem sempre e o excesso de atividade humana que prejudica estes insetos. No sul, no leste e no norte do continente, um fator igualmente importante e precisamente o oposto, o abandono das terras agricolas tradicionais. Quando os campos deixam de ser pastoreados ou cultivados, os arbustos e as arvores avancam e sufocam os prados abertos de que as borboletas dependem. Assim, tanto o exagero como o abandono acabam por conduzir ao mesmo triste resultado.
Muito alem da beleza
Seria um erro pensar que a perda das borboletas e apenas uma questao estetica. Estes insetos desempenham funcoes essenciais nos ecossistemas, contribuindo para a polinizacao de inumeras plantas silvestres e agricolas. Alem disso, sao um elo fundamental nas cadeias alimentares, servindo de alimento a aves, morcegos e outros animais. O seu desaparecimento provoca um efeito domino que se propaga por toda a teia da vida, afetando muito mais do que se poderia imaginar.
Um sinal de alerta mais amplo
O que se observa nas borboletas e, na verdade, a ponta visivel de um problema muito maior. Um pouco por todo o mundo, os cientistas alertam para um declinio generalizado das populacoes de insetos, por vezes descrito de forma dramatica como um apagao biologico. Como as borboletas representam bem este vasto grupo de pequenos seres, a sua queda funciona como um alarme para a saude de toda a biodiversidade, da qual, no fundo, tambem depende a nossa propria sobrevivencia.
A monitorizacao europeia
A boa noticia e que este fenomeno esta a ser acompanhado de perto e com rigor cientifico. Ha varias decadas que existem programas de monitorizacao das borboletas, hoje adotados por mais de trinta paises com metodos padronizados. Muitos dependem do trabalho voluntario de milhares de cidadaos que percorrem sempre os mesmos percursos, contando os insetos que encontram. Esses dados, recolhidos ano apos ano, permitem detetar tendencias que de outra forma passariam completamente despercebidas.
O caso do sul da Europa
Nos paises do sul, incluindo Portugal, o desafio ganha contornos proprios devido as caracteristicas do clima mediterranico. As ondas de calor cada vez mais frequentes e as secas prolongadas colocam uma pressao adicional sobre as borboletas e sobre as plantas de que dependem. A combinacao entre o aquecimento global e as mudancas na paisagem rural torna estas regioes particularmente vulneraveis, exigindo uma atencao redobrada por parte de investigadores e de decisores politicos.
O que se pode fazer
Apesar do quadro sombrio, existem solucoes concretas e ao alcance de todos. A recuperacao de prados floridos, a reducao do uso de pesticidas e a criacao de margens naturais nos campos agricolas podem fazer uma enorme diferenca. Mesmo nas cidades, deixar crescer plantas silvestres em jardins, varandas e espacos publicos oferece refugio a estes insetos. Pequenos gestos, multiplicados por muitas maos, tem o poder de devolver as borboletas o espaco que foram perdendo.
Politicas e restauracao da natureza
A escala do problema exige, no entanto, medidas que vao muito alem das iniciativas individuais. A Uniao Europeia adotou recentemente regras para a restauracao da natureza, que colocam a recuperacao dos ecossistemas no centro das prioridades ambientais. O proprio indicador das borboletas dos prados passou a servir como uma ferramenta oficial para avaliar os progressos dos varios paises. Medir com clareza aquilo que se perde e o primeiro passo indispensavel para o conseguir recuperar.
Uma esperanca fragil
O destino das borboletas ainda nao esta selado, e essa e talvez a mensagem mais importante de todas. Ao contrario de outras crises ambientais mais dificeis de reverter, a recuperacao dos habitats pode trazer estes insetos de volta em relativamente pouco tempo, desde que exista vontade para agir. Proteger as borboletas e, no fundo, proteger a riqueza e o equilibrio de toda a natureza, e garantir que os prados de verao voltem a encher-se de cor para as geracoes que hao de vir.
Visão equilibrada sobre biodiversidade.

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