Uma equipa internacional liderada por um investigador da Universidade do Algarve identificou centenas de sítios de ferramentas de pedra no sul de Omã, revelando duas vagas de migração humana com cerca de cem mil anos.
Durante mais de uma década, uma equipa de investigadores percorreu as areias do sul de Omã à procura de vestígios deixados pelos primeiros seres humanos. O resultado desse trabalho paciente é agora uma descoberta que ajuda a reescrever a história da nossa espécie.
E há um motivo de orgulho nacional nesta história. A equipa internacional foi liderada por um investigador ligado à Universidade do Algarve, colocando a ciência portuguesa no centro de um dos grandes temas da arqueologia, o das origens da humanidade.
Uma equipa com selo português
O trabalho foi conduzido por Jeffrey Rose, investigador do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano, sediado na Universidade do Algarve. Em torno dele juntou-se uma verdadeira rede internacional de especialistas.
Segundo o que foi divulgado, a colaboração reuniu instituições de vários países, entre eles Omã, Portugal, a República Checa, a Ucrânia, os Estados Unidos e a França. Um esforço conjunto que se estendeu, ao todo, por cerca de quinze anos de trabalho no terreno.
Ferramentas de pedra que contam uma história

No centro da descoberta estão centenas de locais onde antigos habitantes fabricavam ferramentas de pedra. Estes sítios, espalhados pelo deserto, funcionam como pistas deixadas ao longo de milhares de anos por grupos humanos que por ali passaram.
As datações apontam para uma antiguidade impressionante, com vestígios que remontam a cerca de cem mil anos. Falamos, portanto, de um período em que os nossos antepassados começavam a expandir-se para lá do continente africano.
Um truque emprestado da ciência forense
Para ler estas pistas, a equipa recorreu a uma abordagem pouco habitual na arqueologia. Inspirando-se em técnicas próximas da ciência forense, os investigadores analisaram as alterações que o passar do tempo deixa na superfície das pedras.
Esse fenómeno, conhecido como patinação, consiste em pequenas mudanças na camada mineral exterior dos artefactos. Ao compará-las, a equipa conseguiu distinguir as ferramentas mais antigas das mais recentes, ordenando no tempo objetos aparentemente semelhantes.
Duas vagas de migração
O método permitiu chegar a uma conclusão surpreendente. Em vez de uma única passagem humana, os dados revelaram duas vagas migratórias distintas, separadas entre si por milhares de anos, que deixaram marcas diferentes na mesma região do deserto.
Cada uma destas vagas corresponde a um momento diferente da longa viagem dos primeiros humanos. A região do sul de Omã surge assim como um cruzamento importante, um lugar de passagem por onde estes grupos terão circulado em épocas distintas.
A criatividade nascida da necessidade
Um dos aspetos mais fascinantes diz respeito à segunda vaga. De acordo com o estudo, os utensílios desse período eram miniaturizados, mais pequenos e mais eficientes, tendo sido produzidos numa altura em que o clima se tornava cada vez mais árido.
Para Jeffrey Rose, citado a propósito da investigação, esta mudança representa um grande salto em termos de criatividade e de resolução de problemas. Seria, no fundo, uma resposta engenhosa a uma crise ambiental vivida há dezenas de milhares de anos.
Uma peça no puzzle das origens
A importância da descoberta vai muito além de Omã. O território encontra-se naquilo a que os cientistas chamam a Rota de Dispersão Meridional, o caminho que os primeiros humanos terão seguido ao deixar África rumo ao resto do mundo.
Compreender o que aconteceu nestas areias ajuda, por isso, a iluminar um capítulo essencial da nossa história comum. E fá-lo, desta vez, com uma assinatura portuguesa bem visível, segundo o estudo publicado numa revista científica da especialidade.
Aprendi bastante sobre Omã aqui.
Visão equilibrada sobre Omã.

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