As abelhas e outros polinizadores estão por trás de grande parte daquilo que comemos, mas enfrentam um declínio preocupante. Explico, com números do relatório da IPBES, por que quase todas as culturas dependem deles, quanto valem para a agricultura e o que podemos fazer para os proteger.
Costumo escrever sobre ciência e sobre os mistérios do universo, mas às vezes as histórias mais fascinantes estão à altura dos nossos joelhos, no jardim. Hoje quero falar de um dos seres mais pequenos e mais subestimados do planeta, a abelha, e dos restantes polinizadores. Por trás do seu zumbido discreto esconde-se um trabalho de que depende, literalmente, grande parte daquilo que pomos no prato.
Três em cada quatro culturas
Comecemos pelo número que melhor resume a importância destes insetos para a nossa mesa. Segundo o relatório da IPBES, cerca de três em cada quatro culturas alimentares do mundo dependem, em maior ou menor grau, da polinização feita por animais. Isto significa que, sem eles, muitos dos frutos, legumes e sementes que consideramos garantidos ficariam subitamente muito mais raros e caros.
Quase todas as flores silvestres
O papel dos polinizadores, porém, vai muito para além dos campos agrícolas cultivados pelo homem. Segundo a IPBES, cerca de noventa por cento das plantas silvestres com flor dependem, pelo menos em parte, da ação dos polinizadores para se reproduzirem. São eles, portanto, que sustentam a beleza e o equilíbrio de ecossistemas inteiros, desde os prados floridos até às orlas das nossas florestas.
Duzentos mil milhões de euros
Se traduzirmos este serviço da natureza em linguagem económica, os números tornam-se ainda mais impressionantes. Segundo as fontes, estima-se que o contributo anual das abelhas para a agricultura mundial ultrapasse os duzentos mil milhões de euros em produção de alimentos. É uma riqueza gerada gratuitamente, todos os anos, por criaturas que nunca nos enviam qualquer fatura pelo seu trabalho incansável.
Um trabalho invisível

Vale a pena parar um instante para perceber o que acontece de facto quando uma abelha visita uma flor. Ao recolher o néctar de que se alimenta, ela transporta sem querer o pólen de flor em flor, permitindo que as plantas gerem frutos e sementes. Este gesto minúsculo, repetido milhões de vezes por dia em todo o mundo, é uma das engrenagens mais silenciosas e essenciais da vida na Terra.
Quarenta por cento em risco
É precisamente por isto que as notícias sobre o seu declínio deviam preocupar-nos a todos, e não apenas os biólogos. Segundo a IPBES, cerca de quarenta por cento dos polinizadores invertebrados, sobretudo abelhas e borboletas, estão ameaçados de extinção. Perder uma fatia tão grande destes trabalhadores da natureza teria consequências difíceis de imaginar para a nossa segurança alimentar.
As abelhas silvestres em declínio
Quando pensamos em abelhas, imaginamos quase sempre a abelha do mel, mas o mundo destes insetos é muito mais vasto. Segundo as fontes, várias espécies de abelhas silvestres estão em declínio em diferentes regiões do planeta, com especial gravidade na Europa e nalgumas zonas da América do Norte. São precisamente estas espécies selvagens, menos conhecidas, que muitas vezes fazem o trabalho mais importante.
Porque estão a desaparecer
As razões deste desaparecimento não são um mistério insondável, mas sim o resultado de escolhas humanas. Segundo as fontes, entre as principais causas estão a fragmentação dos habitats e a supressão da vegetação nativa, o uso excessivo de pesticidas, as doenças e o mau maneio das colónias. A tudo isto junta-se ainda a pressão adicional das alterações climáticas sobre um mundo já fragilizado.
O relatório que soou o alarme
Grande parte destes dados não vem de um estudo isolado, mas de um enorme esforço científico internacional. Segundo as fontes, foi o relatório da IPBES de dois mil e dezasseis, dedicado aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos, que reuniu e sistematizou estas evidências. Foi esse documento que, para muitos, transformou uma preocupação difusa num alarme claro e baseado em números.
Não só o mel
Reduzir a importância das abelhas ao mel que nos dão seria cometer um erro de perspetiva enorme. O verdadeiro tesouro que elas oferecem é o serviço de polinização, que mantém de pé cadeias alimentares inteiras e sustenta a biodiversidade de que também nós fazemos parte. Proteger as abelhas é, no fundo, uma forma bastante concreta de proteger o nosso próprio futuro à mesa.
O que podemos fazer
A boa notícia é que, ao contrário de tantos problemas globais, este permite gestos individuais com efeito real e imediato. Plantar flores nativas na varanda ou no jardim, evitar pesticidas e deixar alguns cantos mais selvagens são medidas simples e ao alcance de quase todos. Cada pequeno oásis florido funciona como um posto de abastecimento para estes viajantes alados incansáveis.
Pequenos gestos, grande impacto
Pode parecer pouco, mas a soma de muitos pequenos gestos é exatamente aquilo de que os polinizadores precisam para resistir. Uma varanda com alfazema, um canteiro sem venenos ou um simples charco para beberem podem fazer a diferença numa cidade. Se cada um de nós oferecer um pequeno abrigo, juntos criamos uma rede de refúgios muito mais poderosa do que qualquer esforço isolado.
Guardiãs silenciosas do nosso prato
No fim, gosto de pensar nas abelhas como guardiãs silenciosas daquilo que comemos todos os dias sem pensar. Elas não pedem reconhecimento nem aplausos, limitam-se a voar de flor em flor e a manter o mundo a funcionar. Da próxima vez que ouvir aquele zumbido perto de uma flor, talvez valha a pena parar um momento e agradecer a uma das mais importantes obreiras da natureza.
Bom contexto sobre polinizadores.
Ótima cobertura sobre polinizadores.

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