Com a Selic em 13,75% e o Fed sinalizando novas altas, a política monetária sufoca investimentos no Brasil e tensiona o cenário global. Analisamos o impacto direto no setor imobiliário e na Itaúsa.
Na terça-feira, 6 de outubro, o mercado em São Paulo reagiu a sinais de mudança na política fiscal, mas a euforia durou pouco. O sentimento dominante entre os grandes investidores não era de celebração, mas de espera tensa. As maiores holdings do país estão com recursos parados, observando cada movimento do Banco Central, prontos para agir apenas quando a taxa de juros começar a descer de fato.
Do outro lado do Atlântico, a situação é oposta. Em 7 de outubro, o Federal Reserve divulgou a ata da reunião de setembro, confirmando que a maioria dos seus dirigentes vê a necessidade de uma nova alta de juros até o fim do ano. O contraste é brutal: enquanto a economia americana tenta domar uma inflação que recusa a cair para a meta de 2%, o Brasil luta para que o custo elevado do crédito não asfixie o consumo e o investimento produtivo, um dilema que define o humor dos mercados globais neste outono de 2026.
O peso dos juros sobre o cimento e o aço
Luiz França, presidente da Abrainc, não usou rodeios durante evento em São Paulo. Os juros elevados sufocam a economia, disse ele, citando um dado que resume a angústia do setor imobiliário. Atualmente, a taxa Selic está em 13,75% ao ano, colocando o Brasil no topo das maiores taxas reais de juros do mundo, um fardo pesado para qualquer projeto de longo prazo.
O peso dos juros sobre o cimento e o aço
Para França, a matemática é simples e cruel. Uma queda de apenas 1 ponto percentual na taxa de juros faria com que 1,3 milhão de famílias ganhassem acesso ao mercado imobiliário. Isso não é teoria, é a realidade de quem depende de financiamento para construir ou comprar. O setor tem um potencial de injeção de 8 trilhões de reais na economia brasileira ao longo da próxima década, um número que parece inalcançável sob a pressão atual do custo do capital.
O peso dos juros sobre o cimento e o aço
O dirigente também apontou para um cenário de fragilidade empresarial. O recorde histórico de 6,3 mil empresas em recuperação judicial, somado ao alto índice de inadimplência, mostra que o ambiente de juros altos não afeta apenas o consumidor final, mas a estrutura produtiva inteira. O FGTS, que deveria ser a âncora da política habitacional, é visto pela associação como uma ferramenta que, ao permitir saques múltiplos, acaba drenando os recursos que os trabalhadores precisariam para a compra da casa própria.

A Itaúsa e a espera paciente por oportunidades
No universo das grandes holdings, a Itaúsa (ITSA4) adota uma postura de cautela estratégica. Raul Cafat, presidente do Conselho de Administração, admitiu durante o Panorama Itaúsa que o crescimento baixo combinado com juros altos limita as possibilidades de investimento com retorno apropriado. A holding está mapeando setores e mantendo conversas avançadas com diversos players, mas a execução depende de uma melhora substancial no cenário macroeconômico.
A Itaúsa e a espera paciente por oportunidades
Alfredo Setúbal, CEO da companhia, reforçou essa visão em entrevista à CNN Money. Ele explicou que a holding não realiza novos investimentos em empresas desde o final de 2022, quando adquiriu participação na Motiva. A razão é clara: o custo de capital elevado torna difícil encontrar ativos que ofereçam a relação risco-retorno que a empresa exige. Setúbal é pragmático. Se a economia crescer, os problemas geopolíticos diminuírem e os juros caírem, a Itaúsa voltará a campo com força total.
A Itaúsa e a espera paciente por oportunidades
No curto prazo, a estratégia tem sido de otimização do portfólio existente. Em 2026, a Itaúsa aumentou sua participação na Aegea e comprou mais ações da Alpargatas, movimento justificado pela crença de que os papéis da dona da Havaianas estão subavaliados. É uma forma de gerar retorno no presente enquanto se aguarda o momento certo para expandir o império de negócios, uma manobra de sobrevivência e posicionamento simultâneas.
O Fed e o fantasma da inflação persistente
Enquanto o Brasil discute a queda dos juros, os Estados Unidos debatem a necessidade de mantê-los altos ou até elevá-los. A ata do Fed, divulgada em 7 de outubro, revela que a maioria dos participantes considera adequada uma nova alta de juros até o fim do ano. A preocupação central é a inflação persistente, que, segundo as projeções dos dirigentes, deve atingir 3,7% em 2026, bem acima da meta de 2%.

O Fed e o fantasma da inflação persistente
Na reunião de setembro, o banco central americano elevou a taxa básica em 0,25 ponto percentual, levando a faixa para entre 3,75% e 4% ao ano. Foi a primeira alta em três anos, aprovada por unanimidade. O documento destaca que a taxa atual ainda não é suficientemente restritiva para controlar a pressão sobre preços de serviços e bens de núcleo. A próxima reunião do Fomc está marcada para os dias 27 e 28 de outubro, e o sinal dado agora é de máxima cautela.
O Fed e o fantasma da inflação persistente
Esse cenário externo adiciona uma camada de complexidade para os investidores brasileiros. Um Fed mais agressivo pode fortalecer o dólar e limitar o espaço de manobra do Banco Central do Brasil, criando um aperto externo que reforça a necessidade de juros altos internamente. A dança dos juros globais é um jogo de soma zero para o custo de capital dos emergentes, onde a vitória de um lado muitas vezes significa a derrota do outro.
A infraestrutura como válvula de escape
Mesmo em um ambiente de juros altos e incerteza, setores específicos continuam a atrair capital por sua natureza defensiva e estratégica. Um exemplo claro é o investimento em energia e mineração em Minas Gerais. A Hitachi Energy, divisão de energia do grupo Hitachi, está em destaque no 18º Seminário Técnico de Proteção e Controle, que ocorre em Belo Horizonte até 9 de outubro.
A infraestrutura como válvula de escape
A empresa apresentou soluções de automação de rede elétrica, focando na capacidade do estado para absorver investimentos massivos. Minas Gerais responde por cerca de 40% da atividade de mineração do Brasil e deve receber mais de 128,5 bilhões de reais em investimentos em energia e mineração até 2032. Além disso, a Hitachi identifica data centers de grande escala como uma nova fonte de demanda elétrica, com projetos que podem exigir até 100 megawatts de potência.

A infraestrutura como válvula de escape
Essa demanda estrutural por infraestrutura de energia cria um nicho de investimento que é menos sensível às flutuações cíclicas do crédito imobiliário, mas ainda assim depende de um ambiente de negócios previsível. Enquanto a Abrainc e a Itaúsa aguardam a virada de chave na política monetária, a infraestrutura segue operando em seu próprio ritmo, sustentada pela necessidade física de conectar e energizar a economia real.
O que esperar dos próximos meses
A conjunção desses fatores cria um cenário de espera ativa. O setor imobiliário está pronto para explodir em investimentos se a Selic começar a descer, mas até lá, o foco é a sobrevivência e a reestruturação de dívidas. A Itaúsa está com o capital em caixa, procurando ativos que façam sentido em um mundo de juros altos, e o Fed prepara o terreno para mais uma alta, o que pode travar ainda mais o fluxo de capitais para o exterior.
O que esperar dos próximos meses
A bola está no campo das autoridades monetárias, mas o impacto já é sentido nas planilhas de empresas e nas contas de famílias. O custo do dinheiro, essa variável invisível que rege o comportamento de todo o sistema econômico, é o protagonista absoluto desta fase do mercado brasileiro em 2026. Quem entender a dinâmica entre a pressão inflacionária externa e a necessidade de crescimento interno terá a vantagem competitiva nos próximos trimestres.
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