O cão é o mais antigo companheiro do ser humano, mas a ciência revela que a sua mente está afinada para nos ler. De ler gestos e emoções ao laço de ocitocina que nos une pelo olhar, descubra como a domesticação moldou um cérebro feito para nos amar e compreender.
Há dezenas de milhares de anos que o cão caminha ao lado do ser humano, tornando-se o mais antigo e fiel dos nossos companheiros. Durante muito tempo vimos nele apenas um animal leal, mas a ciência revela agora algo mais surpreendente, nomeadamente que a mente do cão está extraordinariamente afinada para nos ler e compreender.
Mestres da comunicação humana
Uma das descobertas mais fascinantes é a facilidade com que os cães interpretam os nossos gestos. Quando apontamos para algo, o cão segue naturalmente a direção do dedo, uma capacidade em que supera até os lobos e os chimpanzés, apesar de estes serem geneticamente muito mais próximos de nós do que qualquer cão.
Esta aptidão surge muito cedo na vida do animal, desenvolvendo-se já por volta das oito semanas de idade. Mais revelador ainda, quando um cão se depara com um problema que não consegue resolver, olha para trás em busca do ser humano, pedindo ajuda, algo que os lobos criados por pessoas simplesmente não fazem.
Leitores de emoções

Os cães são também surpreendentemente hábeis a ler a nossa linguagem corporal e as nossas expressões faciais. Experiências demonstraram que um cão consegue distinguir um rosto sorridente de um rosto zangado, e o mais notável é que o faz mesmo quando lhe são mostradas apenas fotografias, sem qualquer outra pista de contexto.
Há ainda um pormenor curioso neste processo. Ao avaliar uma expressão, o cão tende a desviar o olhar para o lado esquerdo do rosto humano, revelando uma preferência ligada ao hemisfério direito do cérebro, exatamente o mesmo padrão que se observa nos seres humanos e noutros primatas mais próximos de nós.
O laço da ocitocina
Talvez a descoberta mais comovente seja de natureza química. Quando o cão e o dono se olham nos olhos, ambos experimentam um aumento da ocitocina, a chamada hormona do amor, a mesma que une, por exemplo, uma mãe ao seu bebé. O olhar do animal desencadeia esta reação de forma quase automática em ambos.
O mais extraordinário é que se forma um verdadeiro ciclo. O olhar do cão aumenta a ocitocina no dono, o que por sua vez eleva a ocitocina no próprio cão, e quanto mais prolongado é este contacto visual mútuo, mais forte se torna a onda hormonal que envolve ambos numa ligação afetiva profunda.
Filhos da domesticação
Este laço químico é exclusivo dos cães domésticos. Lobos criados à mão não reagem da mesma maneira ao contacto visual humano, o que indica que esta ligação especial não é herança selvagem, mas sim fruto da domesticação, construída ao longo de milhares de anos de convivência lado a lado connosco.
A própria evolução deixou marcas visíveis. Estudos identificaram genes associados à comunicação entre humanos e cães que se moldaram ao longo deste percurso partilhado. Embora o cérebro do cão seja mais pequeno do que o do lobo, parece ter sido afinado de forma única para compreender e amar as pessoas.
Muito mais do que obediência
É importante distinguir esta verdadeira cognição social do simples adestramento. Não se trata apenas de um animal que aprendeu a obedecer a ordens em troca de recompensas, mas de um ser que compreende genuinamente sinais sociais subtis, interpreta intenções e responde às emoções de quem tem à sua frente.
Por outras palavras, quando um cão parece perceber que estamos tristes e se aproxima em silêncio, não está apenas a repetir um comportamento treinado. Está a ler pistas reais, muitas delas quase invisíveis para nós, e a agir de acordo com aquilo que sente no ambiente emocional que o rodeia naquele momento.
Uma mente feita para nós
Todas estas descobertas apontam para uma conclusão notável. O cão talvez seja o único animal cujo cérebro se especializou, ao longo da evolução, precisamente em criar laços com outra espécie, a nossa. Não nos limitámos a domesticá-lo, pois de certa forma crescemos juntos e moldámo-nos um ao outro.
O reflexo do olhar
Da próxima vez que o seu cão o fixar com aqueles olhos atentos e serenos, vale a pena lembrar que não se trata de imaginação nem de mero hábito. É uma ligação real, escrita na química do cérebro de ambos e construída ao longo de milénios de amizade partilhada entre duas espécies muito diferentes.
No fundo, olhar para a mente do cão é também olhar para nós próprios. Nesse companheiro de quatro patas que aprendeu a decifrar os nossos gestos e sentimentos, encontramos um espelho inesperado da nossa própria natureza social, e a prova de que a amizade pode atravessar as fronteiras entre as espécies.

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