Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio mostra que o endividamento das famílias no Brasil chegou aos maiores níveis da série histórica em 2026, com cerca de oito em cada dez lares comprometidos com alguma dívida. Um retrato de quem deve, quanto pesa no orçamento e por que os mais pobres sofrem
Poucos números resumem tão bem o momento da economia doméstica no Brasil quanto o do endividamento das famílias. Em 2026, o país atingiu os maiores patamares já registrados nesse indicador, com a maior parte dos lares convivendo com algum tipo de dívida no dia a dia, de cartão de crédito a carnês e financiamentos.
Ter dívidas, por si só, não é necessariamente um problema, pois o crédito pode ajudar famílias a comprar a casa própria, um carro ou a organizar o orçamento. A questão é o tamanho e o ritmo desse endividamento, que vêm crescendo a ponto de acender um alerta entre economistas e entidades que acompanham o consumo no país.
Um recorde que preocupa
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic, realizada pela Confederação Nacional do Comércio, a CNC, o percentual de famílias endividadas chegou a 80,4% em março de 2026, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2010. Em abril, o número subiu ainda mais, alcançando 80,9% dos lares.
A tendência, de acordo com a própria CNC, é de continuidade nessa alta ao longo do ano. As projeções da entidade indicavam que o indicador poderia se aproximar de 82,6% em setembro, o que significa que, na prática, cerca de oito em cada dez famílias brasileiras devem terminar o ano lidando com algum compromisso financeiro em aberto.
Quem deve e quanto do orçamento compromete

Mais revelador do que o número de endividados é o peso que essas dívidas têm no dia a dia. A pesquisa da CNC mostra que, em média, as famílias comprometem cerca de 29,5% do próprio orçamento com o pagamento de dívidas, ou seja, quase um terço de tudo o que ganham já sai destinado a quitar compromissos assumidos.
Esse comprometimento reduz de forma significativa o espaço para consumo, poupança e imprevistos. Quando boa parte da renda mensal já tem destino certo antes mesmo de cair na conta, sobra pouca margem para lidar com emergências, o que torna muitas famílias vulneráveis a qualquer solavanco na economia ou na vida pessoal.
A conta que pesa mais no bolso de quem tem menos
Os dados da CNC também mostram que o endividamento não atinge a todos da mesma forma. Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, o percentual de endividados chega a 84,9%, enquanto entre aquelas com renda superior a dez salários mínimos a proporção cai para cerca de 72%. A dívida, portanto, é mais comum quanto menor a renda.
Essa diferença se explica em parte pela natureza do endividamento das camadas mais pobres, muitas vezes ligado a despesas básicas e a formas de crédito mais caras. Para quem ganha menos, uma conta inesperada ou a alta de um item essencial pode ser o suficiente para empurrar todo o orçamento para dentro de uma dívida difícil de administrar.
Inadimplência, quando a dívida atrasa
Estar endividado é diferente de estar inadimplente. A inadimplência aparece quando a família não consegue pagar em dia e acumula contas atrasadas. Segundo a CNC, o percentual de lares com dívidas em atraso saltou de 22,0% em 2019 para cerca de 30,0% em 2022, patamar em torno do qual o indicador tem se mantido desde então.
Também aqui a desigualdade fica evidente. A inadimplência atinge cerca de 38,5% das famílias de menor renda, contra aproximadamente 15,1% das mais ricas, segundo a pesquisa. Ou seja, além de deverem mais, os lares mais pobres são também os que mais frequentemente ficam presos ao ciclo das contas que não fecham no fim do mês.
O que explica o endividamento
Vários fatores ajudam a explicar esse cenário. Juros elevados encarecem o crédito e as parcelas, enquanto a renda de boa parte da população não cresce no mesmo ritmo do custo de vida. Nesse contexto, o cartão de crédito e o cheque especial acabam funcionando como tábua de salvação para fechar o orçamento, mas cobram caro por isso.
O resultado é uma espécie de bola de neve, em que a família toma crédito para pagar crédito e vai empurrando o problema para a frente. Entidades como o Dieese vêm destacando a importância de programas de renegociação de dívidas para tentar oferecer uma saída mais organizada a quem já se encontra nessa situação.
Caminhos para sair do vermelho
Diante desse quadro, especialistas costumam recomendar passos simples, ainda que difíceis na prática, como colocar todas as dívidas no papel, priorizar as mais caras, evitar novos parcelamentos e buscar renegociação sempre que possível. Programas de renegociação em massa também têm sido usados como ferramenta de política pública para aliviar o peso sobre os mais endividados. No fim das contas, o recorde de endividamento em 2026 funciona como um retrato incômodo, mas útil, de uma economia em que muitas famílias ainda equilibram, mês a mês, um orçamento apertado.
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