avalw
NATURE · PT

As libélulas: as joias voadoras que guardam os rios limpos de Portugal

Rúben Correia Rúben Correia rubencorreia.avalw.com · 342 reads Respect0 Save Share Read only
READS2live count PUBLISHED17 Sept2026 READING TIME4 min853 words LANGUAGEPortuguese
AI CITATIONS? Gathering data

Um clarão vermelho ou azul corta o ar sobre a água num fim de tarde de outono. É uma libélula, um dos animais mais antigos e mais rápidos das nossas águas doces. Descubra como vive entre a água e o ar, porque é uma caçadora quase infalível e o que a sua presença revela sobre a saúde dos rios.

Numa manhã de outono, à beira de um rio ou de uma lagoa do interior de Portugal, é frequente ver um clarão vermelho ou azul a cortar o ar sobre a água. Move-se em ziguezague, para de repente no ar e volta a arrancar num piscar de olhos. Quando finalmente pousa sobre um caule, revela-se então em toda a sua beleza. É uma libélula, uma das criaturas mais antigas, mais rápidas e mais fascinantes que povoam as nossas águas doces.

Joias voadoras dos rios portugueses

As libélulas pertencem a um grupo de insetos chamado odonatos, que inclui também as suas primas mais esguias, as libelinhas. Distingui-las é simples: quando pousa, a libélula mantém as quatro asas abertas na horizontal, enquanto a libelinha as recolhe juntas sobre o corpo. Em Portugal existem dezenas de espécies diferentes, que colorem de vermelho, azul, verde ou dourado as margens de rios, ribeiras, lagoas e albufeiras.

É difícil ficar indiferente perante uma libélula vista de perto. O seu corpo alongado brilha muitas vezes com tons metálicos, as asas transparentes desenham uma renda finíssima e os olhos enormes ocupam quase toda a cabeça. No outono, são sobretudo as chamadas libélulas vermelhas que dominam a cena, aquecendo-se ao sol das últimas tardes amenas antes da chegada definitiva do frio.

Sobreviventes de outra era

Poucos animais na Terra se podem gabar de uma linhagem tão antiga. As libélulas já voavam sobre o planeta há mais de trezentos milhões de anos, muito antes de os primeiros dinossauros surgirem. Alguns dos seus antepassados eram autênticos gigantes, com asas que podiam atingir a envergadura de uma ave de rapina, cruzando as florestas húmidas de um mundo que hoje mal conseguiríamos reconhecer.

Desde então, o seu desenho básico pouco mudou, sinal de que a natureza tinha, desde muito cedo, encontrado uma fórmula quase perfeita. Por isso são muitas vezes descritas como fósseis vivos, testemunhas aladas de uma história com centenas de milhões de anos. Ainda hoje continuam a ser, sem grande concorrência, algumas das mais hábeis voadoras de todo o reino dos insetos.

Uma vida dupla, entre a água e o ar

Uma libélula descansa sobre um caule, com as quatro asas abertas na horizontal, um pormenor que a distingue das delicadas libelinhas. Os olhos enormes ocupam-lhe quase toda a cabeça e garantem-lhe uma visão de quase todo o espaço em redor.
Uma libélula descansa sobre um caule, com as quatro asas abertas na horizontal, um pormenor que a distingue das delicadas libelinhas. Os olhos enormes ocupam-lhe quase toda a cabeça e garantem-lhe uma visão de quase todo o espaço em redor.

O que muita gente ignora é que a libélula que vemos a voar representa apenas a última e mais curta etapa da sua vida. Durante a maior parte da sua existência, ela vive escondida debaixo de água, sob a forma de uma larva a que se chama ninfa. Consoante a espécie e a temperatura da água, esta fase submersa pode durar de um a cinco anos, muito mais do que a sua breve vida adulta.

E não se pense que a ninfa é uma criatura pacífica. Debaixo de água é uma predadora temível, equipada com uma peça bucal extensível que dispara para a frente para agarrar as presas, desde larvas de mosquito a pequenos peixes. Quando chega a hora certa, trepa por um caule para fora de água, a sua pele abre-se e dela emerge, lenta e frágil, a libélula adulta que todos conhecemos.

Caçadoras imbatíveis

Já no ar, a libélula transforma-se numa das mais eficazes máquinas de caça de toda a natureza. Os cientistas calculam que consegue capturar as suas presas em cerca de noventa e cinco por cento das tentativas, uma taxa de sucesso que deixa para trás quase todos os outros predadores. Para isso conta com um voo extraordinário, capaz de pairar no ar parado, mudar de direção num instante e até recuar.

A chave deste sucesso está nos seus olhos descomunais, formados por dezenas de milhares de minúsculas unidades visuais que lhe conferem uma visão de quase trezentos e sessenta graus. Como se alimenta em grande parte de mosquitos e de moscas, a libélula presta-nos também um serviço precioso e gratuito, ajudando a manter sob controlo esses insetos que tanto nos costumam incomodar.

Sentinelas das águas limpas

Para além da beleza e da voracidade, as libélulas têm ainda um enorme valor como indicadoras da saúde do ambiente. Como as suas ninfas precisam de água limpa e bem oxigenada para se desenvolverem, a presença de muitas libélulas costuma ser um bom sinal de que aquele rio, ribeira ou lagoa se encontra num estado saudável e razoavelmente equilibrado.

É também por isso que o seu destino está tão ligado ao da água. A poluição dos rios, a destruição das zonas húmidas e as secas cada vez mais severas que atingem o interior do país ameaçam diretamente estes insetos. Onde as águas se sujam ou desaparecem, as libélulas são das primeiras a partir, deixando um silêncio revelador sobre as margens outrora cheias de vida.

Um espetáculo a preservar

Da próxima vez que passear junto a um curso de água numa tarde de outono, vale a pena parar um instante e observar estas pequenas joias voadoras. Aquele clarão vermelho que paira sobre os juncos é, no fundo, o herdeiro de uma linhagem com mais de trezentos milhões de anos, um autêntico espetáculo da natureza a acontecer mesmo diante dos nossos olhos.

Proteger as libélulas passa, acima de tudo, por proteger a água. Cuidar dos rios, preservar as lagoas e as zonas húmidas e travar a sua poluição é garantir que estas sentinelas aladas continuem a acompanhar-nos. Em troca, elas continuarão a colorir os nossos verões e outonos e a lembrar-nos de que a vida saudável começa, quase sempre, numa água limpa.

0 responses
No responses yet. Be the first to add one.
Rúben Correia
Follow this desk
Rúben Correia
Create a free account to follow Rúben Correia. New stories land in your feed, and you can save any of them to your own reading lists.
Your library & lists →
Rúben Correia
WRITTEN BY THE AUTHOR
Rúben Correia 2026-09-17 · 4 min read · 2 reads
View profile →
VERIFY THIS STORY
ASK AI
Rúben Correia Keep following Rúben CorreiaHer next filing reaches you the moment it publishes, on her own subdomain.
Up next
More
Statistics Search Become a creator Alliances About Terms Privacy