Um clarão vermelho ou azul corta o ar sobre a água num fim de tarde de outono. É uma libélula, um dos animais mais antigos e mais rápidos das nossas águas doces. Descubra como vive entre a água e o ar, porque é uma caçadora quase infalível e o que a sua presença revela sobre a saúde dos rios.
Numa manhã de outono, à beira de um rio ou de uma lagoa do interior de Portugal, é frequente ver um clarão vermelho ou azul a cortar o ar sobre a água. Move-se em ziguezague, para de repente no ar e volta a arrancar num piscar de olhos. Quando finalmente pousa sobre um caule, revela-se então em toda a sua beleza. É uma libélula, uma das criaturas mais antigas, mais rápidas e mais fascinantes que povoam as nossas águas doces.
Joias voadoras dos rios portugueses
As libélulas pertencem a um grupo de insetos chamado odonatos, que inclui também as suas primas mais esguias, as libelinhas. Distingui-las é simples: quando pousa, a libélula mantém as quatro asas abertas na horizontal, enquanto a libelinha as recolhe juntas sobre o corpo. Em Portugal existem dezenas de espécies diferentes, que colorem de vermelho, azul, verde ou dourado as margens de rios, ribeiras, lagoas e albufeiras.
É difícil ficar indiferente perante uma libélula vista de perto. O seu corpo alongado brilha muitas vezes com tons metálicos, as asas transparentes desenham uma renda finíssima e os olhos enormes ocupam quase toda a cabeça. No outono, são sobretudo as chamadas libélulas vermelhas que dominam a cena, aquecendo-se ao sol das últimas tardes amenas antes da chegada definitiva do frio.
Sobreviventes de outra era
Poucos animais na Terra se podem gabar de uma linhagem tão antiga. As libélulas já voavam sobre o planeta há mais de trezentos milhões de anos, muito antes de os primeiros dinossauros surgirem. Alguns dos seus antepassados eram autênticos gigantes, com asas que podiam atingir a envergadura de uma ave de rapina, cruzando as florestas húmidas de um mundo que hoje mal conseguiríamos reconhecer.
Desde então, o seu desenho básico pouco mudou, sinal de que a natureza tinha, desde muito cedo, encontrado uma fórmula quase perfeita. Por isso são muitas vezes descritas como fósseis vivos, testemunhas aladas de uma história com centenas de milhões de anos. Ainda hoje continuam a ser, sem grande concorrência, algumas das mais hábeis voadoras de todo o reino dos insetos.
Uma vida dupla, entre a água e o ar

O que muita gente ignora é que a libélula que vemos a voar representa apenas a última e mais curta etapa da sua vida. Durante a maior parte da sua existência, ela vive escondida debaixo de água, sob a forma de uma larva a que se chama ninfa. Consoante a espécie e a temperatura da água, esta fase submersa pode durar de um a cinco anos, muito mais do que a sua breve vida adulta.
E não se pense que a ninfa é uma criatura pacífica. Debaixo de água é uma predadora temível, equipada com uma peça bucal extensível que dispara para a frente para agarrar as presas, desde larvas de mosquito a pequenos peixes. Quando chega a hora certa, trepa por um caule para fora de água, a sua pele abre-se e dela emerge, lenta e frágil, a libélula adulta que todos conhecemos.
Caçadoras imbatíveis
Já no ar, a libélula transforma-se numa das mais eficazes máquinas de caça de toda a natureza. Os cientistas calculam que consegue capturar as suas presas em cerca de noventa e cinco por cento das tentativas, uma taxa de sucesso que deixa para trás quase todos os outros predadores. Para isso conta com um voo extraordinário, capaz de pairar no ar parado, mudar de direção num instante e até recuar.
A chave deste sucesso está nos seus olhos descomunais, formados por dezenas de milhares de minúsculas unidades visuais que lhe conferem uma visão de quase trezentos e sessenta graus. Como se alimenta em grande parte de mosquitos e de moscas, a libélula presta-nos também um serviço precioso e gratuito, ajudando a manter sob controlo esses insetos que tanto nos costumam incomodar.
Sentinelas das águas limpas
Para além da beleza e da voracidade, as libélulas têm ainda um enorme valor como indicadoras da saúde do ambiente. Como as suas ninfas precisam de água limpa e bem oxigenada para se desenvolverem, a presença de muitas libélulas costuma ser um bom sinal de que aquele rio, ribeira ou lagoa se encontra num estado saudável e razoavelmente equilibrado.
É também por isso que o seu destino está tão ligado ao da água. A poluição dos rios, a destruição das zonas húmidas e as secas cada vez mais severas que atingem o interior do país ameaçam diretamente estes insetos. Onde as águas se sujam ou desaparecem, as libélulas são das primeiras a partir, deixando um silêncio revelador sobre as margens outrora cheias de vida.
Um espetáculo a preservar
Da próxima vez que passear junto a um curso de água numa tarde de outono, vale a pena parar um instante e observar estas pequenas joias voadoras. Aquele clarão vermelho que paira sobre os juncos é, no fundo, o herdeiro de uma linhagem com mais de trezentos milhões de anos, um autêntico espetáculo da natureza a acontecer mesmo diante dos nossos olhos.
Proteger as libélulas passa, acima de tudo, por proteger a água. Cuidar dos rios, preservar as lagoas e as zonas húmidas e travar a sua poluição é garantir que estas sentinelas aladas continuem a acompanhar-nos. Em troca, elas continuarão a colorir os nossos verões e outonos e a lembrar-nos de que a vida saudável começa, quase sempre, numa água limpa.

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