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A crisopa: a fada de asas de renda cujas larvas devoram os pulgões do jardim NATURE · PT

A crisopa: a fada de asas de renda cujas larvas devoram os pulgões do jardim

Rúben Correia Rúben Correia rubencorreia.avalw.com · 1.4k reads Respect0 Save Share Read only
READS37live count PUBLISHED17 Sept2026 READING TIME4 min857 words LANGUAGEPortuguese
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De asas transparentes rendilhadas e olhos dourados, a crisopa parece uma fada em miniatura. Mas as suas larvas, apelidadas de leões-dos-pulgões, são predadoras vorazes que devoram centenas de pulgões. Conheça uma das mais belas e úteis aliadas naturais de quem cultiva a terra.

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Numa noite tépida de verão ou de início de outono, acontece por vezes pousar junto a uma janela iluminada, ou sobre uma flor, um inseto de aspeto quase irreal. Tem o corpo de um verde pálido e delicado, duas grandes asas transparentes atravessadas por uma fina renda de nervuras, e uns olhos que brilham como pequenas contas douradas. É a crisopa, uma das criaturas mais belas e, ao mesmo tempo, mais úteis que habitam os nossos jardins, ainda que quase ninguém a conheça.

A fada verde do jardim

A crisopa pertence a um grupo de insetos conhecidos como crisopídeos, cujo nome faz referência às suas caraterísticas asas rendilhadas. O corpo esguio e a tonalidade verde clara conferem-lhe um ar frágil e etéreo, quase de fada em miniatura. Ativa sobretudo ao entardecer e durante a noite, é frequente vê-la esvoaçar em torno das luzes, atraída pela claridade, movendo-se com um voo leve e algo desajeitado.

Ao contrário do que a sua fama de predadora poderia sugerir, a crisopa adulta é um ser inofensivo e delicado. Alimenta-se essencialmente de néctar, de pólen e de melada, a substância açucarada deixada por outros insetos sobre as folhas. Não morde nem pica, e a sua presença numa casa ou num jardim nunca representa qualquer perigo. Toda a sua fama de caçadora implacável deve-se, na verdade, à fase mais jovem da sua vida.

As larvas devoradoras: os leões-dos-pulgões

É nas suas larvas que reside o verdadeiro segredo da crisopa. Pequenas, alongadas e munidas de fortes mandíbulas em forma de foice, estas larvas são predadoras vorazes que percorrem incansavelmente as folhas em busca de presas. O seu apetite pelos pulgões, aqueles minúsculos parasitas que sugam a seiva das plantas, é tão lendário que lhes valeu um nome bem sugestivo: leões-dos-pulgões.

E o apelido é mais do que merecido. Calcula-se que uma única larva possa devorar mais de duzentos pulgões numa só semana, e várias centenas ao longo de todo o seu desenvolvimento. Além dos pulgões, ataca também tripes, moscas-brancas, ácaros e outras pragas de corpo mole. Agarra a presa por baixo, ergue-a com as mandíbulas e injeta-lhe um fluido que dissolve o seu interior, sugando-o depois por completo.

Ovos em hastes e larvas disfarçadas

A crisopa recorre ainda a truques engenhosos para garantir a sobrevivência das suas crias. A fêmea deposita cada ovo na ponta de um fino pedúnculo de seda, mantendo-o suspenso no ar. Deste modo, protege-o das formigas e evita que as primeiras larvas a nascer devorem os irmãos ainda por eclodir, um risco real entre predadoras tão vorazes desde o primeiro instante da sua vida.

As próprias larvas dominam também a arte do disfarce. Muitas delas transportam sobre o dorso um verdadeiro monte de detritos, feito de restos de plantas, de líquenes e até dos corpos secos das presas que já devoraram. Coberta por esta bizarra mochila de lixo, a larva torna-se praticamente invisível aos olhos dos predadores, movendo-se pelas folhas como um pequeno e ambulante amontoado de sujidade.

Aliadas do agricultor e do jardineiro

Uma joaninha de sete pintas percorre uma folha coberta de gotas de orvalho. Tal como a crisopa, é uma incansável predadora de pulgões e uma das melhores amigas naturais de quem cultiva a terra.
Uma joaninha de sete pintas percorre uma folha coberta de gotas de orvalho. Tal como a crisopa, é uma incansável predadora de pulgões e uma das melhores amigas naturais de quem cultiva a terra.

Graças a este apetite insaciável por pragas, as crisopas transformaram-se em preciosas aliadas de agricultores e jardineiros um pouco por todo o mundo. São hoje amplamente utilizadas no chamado controlo biológico, sendo criadas e libertadas em estufas, pomares e hortas para combater os pulgões de forma natural, dispensando o recurso a pesticidas químicos que tanto prejudicam o ambiente e os demais insetos.

A crisopa não está, contudo, sozinha nesta silenciosa cruzada contra as pragas. A célebre joaninha é a outra grande caçadora de pulgões dos nossos jardins, tão vermelha e vistosa quanto discreta é a crisopa. Juntas, estas duas predadoras formam a mais eficaz dupla de defensoras naturais das plantas, mantendo em equilíbrio, sem qualquer ajuda química, as populações de insetos nocivos.

Um ciclo rápido e discreto

Toda a extraordinária vida da crisopa se desenrola num ritmo surpreendentemente veloz. Após duas a três semanas de caça intensa, a larva tece um pequeno casulo de seda, dentro do qual se transforma, e cerca de dez a catorze dias depois emerge já o inseto adulto de asas rendilhadas. Este ciclo curto permite que, ao longo de uma única estação, se sucedam várias gerações destas infatigáveis caçadoras.

Com a chegada dos dias mais frios do outono, muitas crisopas procuram abrigo para passar o inverno, escondendo-se em fendas, sob cascas de árvore ou mesmo no interior de casas e telheiros. Algumas mudam então a sua cor verde para tons acastanhados, camuflando-se melhor entre a folhagem seca. Quando regressa a primavera, retomam a sua discreta e valiosa missão de proteger as plantas.

Pequenas guardiãs a proteger

Da próxima vez que uma pequena crisopa verde vier pousar perto de si, atraída pela luz de uma janela numa noite de outono, resista à tentação de a enxotar. Está diante de uma das mais delicadas e generosas guardiãs do seu jardim, uma criatura que, sem nada pedir em troca, trabalha para manter as suas plantas livres de pragas e cheias de vida.

Proteger estas aliadas é, no fundo, proteger o próprio jardim. Basta evitar o uso excessivo de pesticidas, que as eliminam tão facilmente como às pragas que elas combatem, e deixar alguns cantos mais selvagens onde possam abrigar-se e reproduzir-se. Em troca deste pequeno gesto, crisopas e joaninhas continuarão a velar, noite após noite, pela saúde silenciosa das nossas hortas e dos nossos canteiros.

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Rúben Correia 2026-09-17 · 4 min read · 37 reads
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