Ao entardecer entra pela janela um enorme mosquito de pernas larguíssimas que esvoaça desajeitado pela sala, e logo há alarme em casa. Mas aquele visitante trapalhão é uma típula, um dos insetos mais inofensivos e mais injustamente temidos dos jardins de Portugal.
Ao entardecer, entra pela janela um enorme mosquito de pernas incrivelmente longas, que esvoaça desajeitado pela sala e vai bater contra a lâmpada. Em casa há logo alarme: todos receiam aquele bicho que parece um mosquito gigante, pronto a picar. Na verdade, porém, aquele visitante trapalhão é uma típula, um dos insetos mais inofensivos e mais injustamente temidos que existem.
Nem mosquito, nem perigo
Apesar da sua parecença com um mosquito descomunal, a típula é uma mosca verdadeira e não tem absolutamente nada de perigoso. Não pica, não ferroa e não transmite qualquer doença, e muitas espécies, em fase adulta, nem sequer se alimentam. Toda aquela aparência ameaçadora não passa, no fundo, de um grande equívoco aos olhos humanos.
O seu corpo é delgado e frágil, sustentado por umas pernas finíssimas e desproporcionadamente longas, que se partem com a maior das facilidades. O voo é lento e atrapalhado, quase aos solavancos, muito diferente do zumbido ágil de um verdadeiro mosquito. Basta observá-la de perto por uns instantes para perceber que não há ali qualquer ameaça.
Uma vida adulta muito curta

A vida adulta da típula é surpreendentemente breve, durando apenas alguns dias, no máximo cerca de uma semana. Nesse curto espaço de tempo, o seu único objetivo é encontrar um parceiro e reproduzir-se. Muitas nem chegam a comer o que quer que seja, vivendo apenas das reservas que acumularam enquanto eram larvas debaixo da terra.
É por isso que a típula que esvoaça à volta da lâmpada ou bate contra o vidro não anda, de modo algum, à nossa procura. É apenas um adulto de vida efémera, empenhado numa corrida contra o tempo para deixar descendência antes de morrer. Compreender isto ajuda a olhar para ela com muito menos receio e bastante mais curiosidade.
A vida escondida sob a terra
Ao contrário do que se pensa, a maior parte da existência da típula decorre escondida sob o solo. Dos ovos nascem larvas de pele grossa e resistente, conhecidas pelo curioso nome de couros, que vivem enterradas na terra húmida ou no leito de charcos e ribeiros. Aí alimentam-se sobretudo de raízes e de matéria vegetal em decomposição.
Nesse papel discreto, os couros comportam-se como pequenos recicladores da natureza, decompondo restos de plantas e devolvendo ao solo os nutrientes de que este precisa. Quando surgem em grande número, é certo que podem roer as raízes dos relvados e causar alguns danos, mas na maioria dos casos o seu trabalho enriquece silenciosamente a terra dos nossos jardins.
Alimento essencial para muitos
Sendo tão numerosas e de tamanho relativamente grande, as típulas representam uma fonte de alimento preciosa para inúmeros outros animais. Tanto as larvas enterradas como os adultos alados enchem os pratos de aves, morcegos, pequenos mamíferos e vários insetos predadores. Uma boa emergência de típulas no outono é, para eles, um autêntico banquete.
Um mal-entendido antigo
Grande parte do medo que inspiram nasce apenas da sua desventurada semelhança com um mosquito gigante. Essa parecença rendeu-lhes alcunhas assustadoras e uma má fama completamente imerecida. Na realidade, as típulas não possuem sequer peças bucais capazes de picar, pelo que nunca poderiam fazer-nos mal, ainda que quisessem.
Todo o pânico que costumam provocar é, portanto, um simples caso de identidade trocada. Um inseto delicado e frágil, condenado a ser temido apenas por causa da sua aparência. Quando percebemos que se trata de uma criatura totalmente inofensiva, é difícil não sentir uma ponta de simpatia por este desajeitado visitante das noites de verão e de outono.
Como conviver com elas
Conviver com as típulas é, felizmente, muito fácil. Se uma delas entrar em casa, o melhor é guiá-la com calma de volta para o exterior, com cuidado para não lhe partir as pernas delicadas. No jardim, o mais sensato é simplesmente deixá-las em paz, pois não fazem mal nenhum e servem de alimento a muitas das aves de que tanto gostamos.
Um jardim onde as típulas aparecem é, quase sempre, um jardim vivo e saudável, cheio de solo fértil e de alimento para a fauna que nele habita. Renunciar aos inseticidas e aceitar a presença destes insetos frágeis é uma forma simples de manter esse delicado equilíbrio natural a funcionar bem.
Assim, da próxima vez que um mosquito gigante entrar aos tropeções pela sua janela, resista à tentação de o esmagar com medo. À sua frente está apenas uma típula, uma voadora frágil e de vida breve que alimenta as aves e enriquece a terra, sem nunca nos pedir nada em troca. Basta um olhar mais atento para trocar o receio por admiração.

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