Com a sua cauda em forquilha e o voo elegante, o milhafre-real é uma das mais graciosas aves de rapina que cruzam o céu do interior. Vítima do veneno no passado, esta ave migradora encontra na Península Ibérica o seu grande refúgio de inverno. Uma história de perseguição e de esperança.
Quem levanta os olhos para o céu do interior de Portugal num dia de outono pode ter a sorte de ver uma silhueta inconfundível a planar sem esforço. Longas asas anguladas, um voo elegante e, sobretudo, uma cauda profundamente forcada denunciam a presença do milhafre-real, uma das nossas aves de rapina mais graciosas.
Uma silhueta inconfundível
O milhafre-real é difícil de confundir com qualquer outra ave. A sua plumagem em tons de castanho avermelhado, as manchas claras sob as asas e aquela cauda em forma de forquilha, que usa como leme para corrigir cada curva, fazem dele um verdadeiro mestre do voo, aproveitando com mestria as correntes de ar quente.
Ao contrário de outras aves de rapina, o milhafre não é um caçador agressivo. Passa grande parte do tempo a planar lentamente sobre campos, pastagens e montados, atento a pequenas presas, mas sobretudo a restos e animais mortos que encontra pelo caminho, cumprindo um discreto papel de limpeza da paisagem.
Hóspede de inverno

Muitos dos milhafres que vemos por cá no inverno não são residentes. Boa parte das populações do centro e do norte da Europa desloca-se para sul quando chega o frio, e a Península Ibérica torna-se o seu grande refúgio. A vizinha Espanha acolhe a maior população invernante do mundo, e Portugal recebe também a sua parte.
É precisamente no outono que estas aves começam a chegar, vindas de longe, para passar os meses mais frios nas nossas planícies e vales do interior. Ali encontram campos abertos, clima ameno e alimento suficiente para atravessar o inverno, antes de regressarem aos locais de nidificação na primavera seguinte.
Um passado de perseguição
Nem tudo, porém, são boas notícias para esta ave. Durante décadas o milhafre-real foi vítima de uma perseguição implacável, sobretudo através do veneno. Estima-se que só em Espanha, entre 1990 e 2005, os iscos envenenados tenham matado cerca de catorze mil milhafres, um golpe verdadeiramente brutal para a espécie.
Ao veneno juntam-se outras ameaças de origem humana: os tiros ilegais, os choques com as linhas elétricas e os atropelamentos nas estradas. Não admira que em Espanha a espécie esteja classificada como em perigo de extinção, um sinal de alarme para toda a população ibérica, incluindo a que nos visita.
A esperança dos que voltam
Felizmente, há também quem trabalhe para inverter este rumo. Um projeto de reintrodução tem trazido entre cento e vinte e cento e trinta milhafres jovens do Reino Unido para a Extremadura espanhola, mesmo junto à fronteira com Portugal. Depois de exames veterinários e de um período de adaptação, as aves são libertadas para reforçar as frágeis populações do sul.
Por que precisa de nós
Estudos recentes mostram que os milhafres que passam o inverno na Península Ibérica estão pouco protegidos, porque muitos dos campos onde se concentram ficam fora das áreas protegidas. Isto significa que a sua sobrevivência depende, em grande medida, da forma como gerimos a paisagem agrícola comum onde eles vivem.
O guardião dos campos
Proteger o milhafre-real é, no fundo, proteger a saúde de todo o campo português. Uma ave que se alimenta de restos só prospera onde não há venenos espalhados e onde a natureza segue o seu curso. A sua presença no céu é, por isso, um bom sinal de que a paisagem à nossa volta continua viva e equilibrada.
Um céu que vale a pena olhar
Da próxima vez que passear pelo interior e sentir uma sombra a cruzar o sol, vale a pena parar e olhar para cima. Pode ser um milhafre-real a desenhar círculos no céu, um viajante que percorreu meia Europa para passar o inverno entre nós, nas mesmas planícies e montados que tanto me fascinam a mim.
Documentar a seca e as mudanças que atravessam o interior do país ensinou-me a olhar com atenção para estes sinais discretos. O regresso silencioso do milhafre a cada outono lembra-nos que, apesar de tudo, ainda há muito por salvar e muito por que vale mesmo a pena lutar no mundo natural.

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